No princípio era o verbo
Leio um artigo de Gaudêncio Torquato, em que no início ele cita trecho do discurso de Zaratustra, o filósofo de Nietzsche: Novos caminhos sigo, uma nova fala me empolga; como todos os criadores, cansei-me das velhas línguas. Não quer mais meu espírito, caminhar com solas gastas.
Novos rumos sigo nas veredas da palavra, talvez por ter percorrido antes muitos descaminhos nas trilhas do verbo onde tudo principia, ou quem sabe, porque a palavra hoje me conduz de forma mais intensa, e não eu a ela. Na verdade, não apenas conduz como se leva uma criança pela mão, mas arrebata, subjuga, às vezes aniquila, esgota, pois a palavra pode ser turbilhão de amor. Como paixão de minha vida a qual dedico minha existência, sei também que ela é traiçoeira. Foge de mim. Só vem quando cisma de aparecer. É como gato arredio pois só deita no meu colo quando quer.
Com a palavra sou espadachim: corto, luto, firo e recebo de volta estocadas que ferem meu espírito hoje repleto de cicatrizes. Com a palavra posso fazer sombra, exalar perfume, ser buquê de rosas vermelhas, jasmins-do-cabo ao luar, suave trepidação de borboletas azuis ao pôr-do-sol. Com a palavra volto à casa de meu avô para descrever as cortinas brancas das janelas da grande sala de visita, que esvoaçavam qual tênues fantasmas ao alvorecer.
Ah, palavra, à qual me escravizo, minha razão de ser, paixão candente, reverberação de dor. Com ela não tenho fronteiras, rompo mundos, alcançam estrelas, penetro em corações sequiosos de boas palavras e neles semeio sementes de flamboyants.
Ainda mais agora, com essa a nona maravilha do mundo ao meu alcance, o correio eletrônico, potencializo a palavra e às vezes me vingo, fazendo dela picadinho. De fato, o e-mail é meu fiat lux. Através dele, como aprendiz de Deus, crio e me comunico como meus semelhantes. É só querer. Basta intuir. Está ao alcance dos dedos. Está dentro da mente ou no avesso do corpo.
Via computador, as palavras são puro instrumento transmental, ligações
extracorpóreas, comunicação atemporal, contatos de terceiro grau. Considere-se ainda que nesse universo mágico o que se escreve é de alta periculosidade, pois assim como nele se cria e se mantém, também se destrói, como na trindade dos deuses do induísmo Brahma, Vishnu e Shiva.
Na Internet, muitos crimes são cometidos através da palavra, pois ela confere tanto o poder de exaltar quanto o de aniquilar sentimentos alheios. Inclui-se nisso o fato de que muitas ilusões se transformam em desilusões quando a ficção do computador se transforma em realidade. A coisa chega a um ponto que há gente que se casa porque se conheceu através da Internet, como ainda outro dia li num jornal que aconteceu entre uma brasileira e um canadense.
Em compensação, outra paixão, obra dos chats, esmoreceu de vez em 18 dias depois do encontro do casal. O mito que havia sido construído com a palavra, sucumbiu quando a matéria se consumou, pois o mito é mais forte que a verdade.
Na palavra às vezes me refugio, e ela me expulsa. Quando imploro por seu consolo, ela me ignora. E se a quero comigo, vai embora sem deixar rastro. Trabalhosa e difícil, sobretudo quando escrita, engana-me, tortura-me com seus caprichos e se faz de rogada. E só quem a ela se submete para poder existir, conhece o desespero de tentar desvendar seus mistérios. Ainda assim, ama a palavra.
Hoje entendo a simbologia de Toth, o deus dos escribas que pertenceu ao panteon egípcio. Para o povo que viveu na maior das civilizações já havidas, ele era o Senhor das Palavras Divinas, e os sacerdotes ligados à teologia de Heliópolis o qualificavam como a língua de Aton. Ao mesmo tempo, era considerado o inventor da palavra falada e escrita, assim como das fórmulas mágicas que conferiam poder aos deuses. Ele era a inteligência divina, o verbo divino. Também era o deus da Lua, o guerreiro desse astro abençoado periodicamente por Seth. Elevado à categoria de demiurgo (criatura intermediária entre a natureza divina e a humana), era-lhe atribuído o grito que saído de sua boca criou o universo. Ele era ainda o regulador do tempo e aquele que faz reinar a ordem no universo.
Toth era, pois, o grandioso senhor da palavra, e a ele submeto simbolicamente meu incessante lavor, que nunca se completa, que nunca satisfaz, e que ainda assim me arrasta e faz de mim escriba, que no Egito antigo era tão valorizado e hoje nem tanto.
O que dirão diante deste texto os que porventura lançarem os olhos sobre ele? Como traduzirão e decodificarão esses hieróglifos de minha alma projetados através do jornal? Nunca vou saber o que será alcançado, se produzirei o tédio, se levarei o leitor a abandonar essas poucas linhas, se conquistarei o plano de outras mentes que à minha virão através da palavra aqui lançada.
De todo modo, apresento aos que me lerem minhas escusas por planar sob os cumes altos da expressão, onde é permitido a linguagem mais rarefeita dos sentimentos e dos sonhos. Aliás, o que aqui está escrito não tem nada a ver com o que deveria ter sido o tema do artigo deste sábado. Assuntos mais concretos estavam chamando minha atenção. Alguém me sugeriu que escrevesse sobre as eleições americanas. Outros esperavam que discorresse sobre a morte de um assentado. Poderia ainda ter me dedicado ao aumento dos combustíveis, ou a vergastar um certo partido político. Depois faço isso. Hoje não quis. Melhor, não pude. Como rio caudaloso, a palavra me arrastou, impôs-se, dominou-me. E assim, chego cansada ao final de mais essa jornada, ou seja, desse texto que me proponho semanalmente, consciente de que mesmo que um dia perca o pouco que tenho em termos profissionais, ainda restará o que de mim faz um ser vivente: a palavra.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é escritora em Londrina
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