Nos últimos anos, o brasileiro tem levado sucessivos sustos ao olhar-se diante do espelho. Não se reconhece mais na imagem que vê refletida. A partir daí, tem início um processo esquizofrênico: os mais práticos, talvez a maioria, deixaram o espelho de lado; por sua vez, os mais teóricos tentam em vão enquadrar a realidade em suas ideologias. Distante e apática, a mídia limita-se a registrar o trágico dia-a-dia do cidadão comum: mendicância, roubos, prostituição infantil, drogas e violência generalizada.
Em poucas palavras, é esse o retrato real do País hoje. Ele de fato nada tem a ver com o Brasil imaginário com o qual aprendemos a conviver desde os bancos escolares. Crescemos ouvindo bordões do tipo ''não somos racistas'', ''o povo é bom, a elite é que não presta'', ''o brasileiro é tolerante por índole e avesso a qualquer tipo de violência'', dentre outras ''pérolas''.
Mas, deve estar-se perguntando o leitor, qual é a origem dessa dicotomia entre o País real e o imaginário? Mais ainda: por que motivo, de uns tempos para cá, ela aumentou assustadoramente? As respostas para as duas questões são complexas e requerem mais do que o espaço deste artigo.
Vamos recuar no tempo até chegarmos à ''Casa Grande e Senzala'', do sociólogo pernambucano Gilberto Freyre. Obra de fundamental importância, sem dúvida, que fez a cabeça de gerações de intelectuais, mas que também serviu e muito bem para absolver as mazelas das oligarquias escravagistas imperiais.
A questão que se impõe é esta: será que Freyre, hoje, teria coragem de dizer que a exclusão social (a nova forma da escravidão), tão comum nas periferias das grandes cidades brasileiras, e também nos mais remotos rincões rurais do País, ''é a mais doce possível?'' Com a palavra os excluídos.
Por sua vez, o antropólogo Darcy Ribeiro, muito cultuado nos meios acadêmicos, ao analisar o resultado da secular miscigenação entre índios, negros e ibéricos, que acabou dando origem às primeiras gerações dos brasileiros, arrisca-se a vaticinar para elas não um futuro, mas um presente nada menos do que brilhante: para Darcy, o homem brasileiro atual já seria a nova versão do que foram os romanos.
Com todo o respeito que a extensa obra de Darcy Ribeiro merece de todos nós, os fatos do dia-a-dia estão mostrando que, hoje, nos parecemos muito mais com os bárbaros daqueles tempos do que com os romanos.
E, já que estamos falando de nossos ancestrais mais antigos, lembro o leitor de que da mesma forma que a Gália (França), conquistada por Júlio César, o Brasil de hoje também está dividido em três partes: a dos excluídos, a dos ''patrícios'' e a dos perplexos.
Os primeiros sobrevivem no mais hipócrita apartheid social de que se tem notícia nos tempos modernos; os segundos defendem, com unhas e dentes, os privilégios adquiridos nos altos cargos dos serviços públicos federal e estaduais. O terceiro grupo, o dos perplexos, é formado por boa parte do setor produtivo, trabalhadores e classe média assalariada, que não entendem nem o cinismo dos ''patrícios'' nem a passividade dos excluídos.
Para mudar essa triste realidade, será necessário que os brasileiros de boa vontade se mobilizem em campanha nacional a favor das reformas inadiáveis (previdenciária, tributária, trabalhista, política e do Judiciário, dentre outras). Sem elas, em menos tempo do que se imagina, o Brasil tornar-se-á ingovernável.
MIGUEL IGNATIOS é presidente da Federação Nacional das Associações Brasileiras de Dirigentes de Vendas e Marketing do Brasil (Fenadvb)