No país da cachaça
Há dias li na Folha uma reportagem intitulada Decreto federal protege a cachaça, sobre uma medida do governo federal para proteger e reconhecer a cachaça como produto genuinamente brasileiro. Além de trazer informações em números sobre a quantidade exportada do produto, o artigo também informa que, de acordo com o secretário-executivo do Ministério da Agricultura, Marcio Fontes de Almeida, há uma preocupação de se proteger as expressões cachaça, Brasil e cachaça do Brasil. Essa proteção também se estende ao termo caipirinha, já que o Brasil também é pioneiro na adição de limão e açúcar à cachaça. O que espera o nosso presidente com tal ato? Que nos sintamos orgulhosos com o novo produto made in Brazil? É no mínimo vergonhoso a um País como o nosso, repleto de injustiças e corrupções, ter que aplaudir o empenho de nossos governantes em transformar a pátria em terra do alcoolismo. Agora, além de sermos internacionalmente conhecidos como país do carnaval e do futebol, teremos o título de país da cachaça. Nesse ritmo, logo chegaremos a país do tabaco, da violência, das drogas... O que com o apoio de parlamentares não será difícil.
É pena que soluções para a miséria, a violência urbana, as enchentes, o problema carcerário e tantos outros que assolam o Brasil não sejam prioridades deste governo. Por que não proteger a Amazônia da depredação constante? Por que não viabilizar a reforma agrária, para facilitar a massa agricultora? Por que não por em prática os projetos para as enchentes, em cidades atingidas todo ano por catástrofes? Um país precisa ser reconhecido pela competência de seus dirigentes, pelo bem-estar oferecido a seu povo, e não só pelo seu talento para os esportes, para a cachaça e para o samba.
É lamentável constatar, em meio a esse turbilhão de problemas, as acusações e baixarias constantes entre aqueles que se dizem presidenciáveis. Qual será a preocupação do próximo presidente? Talvez, publicar um decreto protegendo as expressões povo neobobo ou cracolândia?
Mas não é só, Brasil. No país das MPs, há também as MRs, medidas racistas, que prevêem cota de vagas (20%) para negros em licitação do Supremo Tribunal Federal. Desde quando os negros são diferentes dos outros? Não sabem os autores de tal edital absurdo que qualquer distinção entre raças constitui-se em racismo? Não se reserva vagas aos brancos, em setor algum. Os seres humanos devem ser selecionados, em qualquer área, por suas respectivas qualificações profissionais e não físicas, quando elas não forem necessárias às funções a serem desempenhadas.
Nós, brasileiros, não podemos admitir tais abusos, tão contrários a nossos anseios e a nossa realidade. Precisamos estar orgulhosos do nosso verdadeiro potencial e exaltá-lo, sem medo. Mas, infelizmente, o nosso empenho não será suficiente, se não houver colaboração daqueles que detêm os recursos para tal. O poder, sim, emana do povo, mas que tipo de povo? Um povo unido em seus ideais e forte para dizer não àquilo que não cabe a um país agrícola, multirracial e de baixo poder aquisitivo. Olhemos para nosso litoral, para nossas terras e clima, para nosso povo hospitaleiro e simples, para a nossa tradição da não-guerra, para a nossa convivência pacífica, entre povos tão diferentes a cada esquina...
Temos terra, mas não temos política adequada para os que dela pretendem viver; temos riqueza hidráulica, mas nem sempre a consciência da preservação dos rios e mares e nem investimento apropriado, para melhor aproveitá-lo; temos clima favorável ao turismo, mas falta segurança e sobra a violência urbana; temos facilidade de integração estadual, mas faltam verbas para construir estradas e melhorar as que já existem; temos um bom povo, mas não a educação, saúde e bem-estar que ele merece; temos alegria e esperança de que tudo vai melhorar, mas não temos confiança naqueles que sobrepõem os interesses pessoais, em detrimento do coletivo.
É preciso acreditar que quando a terra é boa, a colheita é certa. Maltratar este país é o mesmo que rasgar dinheiro. Não queremos colecionar títulos que não nos remetam a nossa grandeza, antes queremos tornar notícia o que temos de melhor a nosso favor. Assim, não será difícil perceber que vivemos no país da fartura, do futuro, da natureza...
RITA DE CÁSSIA SIMÕES MARTELINI é estudante em Londrina





