Abraham Shapiro
Um dos fenômenos que marcam o final de milênio é a fantástica multiplicação de soluções místicas apresentadas aos antigos e atuais problemas da humanidade. Profetas de todos os tipos, cores e credos entram em cena com suas verdades definitivas e absolutas, mostrando-se capazes de produzir um mundo utópico e ideal a partir de inspirações, idéias e filosofias como se fossem mágicos. Muitos os seguem por acreditarem na possibilidade de uma mudança instantânea do estado de insatisfação e desagrado em que se encontram. A falta de auto-estima, no entanto, multiplica-se. A vivência pautada nos frutos dos atos de cada dia parece fora de moda e assim, prosseguimos em busca da ficção e do sonho, da inspiração e da recompensa. Estas e outras idéias encontram-se colocadas de forma bastante apropriada na obra ‘‘Living Inspired’’ (‘‘Vida Inspirada’’), do Dr. Akiva Tatz - um atual best seller nos Estados Unidos.
Segundo a Bíblia, 5.759 anos transcorreram desde a criação do primeiro casal de humanos - Adão e Eva. A sucessão de histórias expostas no livro sagrado parece enfatizar o insistente desejo de Deus em ver o homem optar pela elevação e aperfeiçoamento de si mesmo e, em consequência, de todo o mundo à sua volta. Submete-o a situações extremas e, em muitos casos, severas. Nunca, contudo, acima do imenso e gigantesco potencial com que o muniu desde o primeiro sopro de vida. Deus encontra-se presente em todos os fatos ali narrados, produzindo um estímulo inicial e em seguida observando a atitude decorrente do livre-arbítrio com que dotou sua criatura. Felicidade ou infelicidade serão, então, o fruto da reação do homem, as consequências de seus atos somadas às suas influências ambientais.
Deus põe Adão e Eva num paraíso. Nos primeiros instantes da presença humana naquele jardim, os dois agem em desobediência à lei divina e baixam seu nível de vida trazendo trevas sobre o mundo. Sua vida será, desde então, difícil e sofrida.
Abraham, o primeiro monoteísta da história, tem um filho aos 100 anos de idade, Isaac - nome cujo significado hebraico é ‘‘dar risada’’ - como cumprimento de uma promessa do Criador de que sua semente será próspera e numerosa. Tempos após, vê-se diante de uma solicitação divina para sacrificar o próprio filho, o que para ele seria o fim de uma esperança de anos.
Jacob, após trabalhar sete anos seguidos como empregado de seu tio com o fim de casar-se com a prima Rachel, é sumariamente enganado ao ver sua noiva trocada pela irmã na noite do casamento. Trabalha duro outros sete anos para realizar seu objetivo sentimental.
As Tábuas da Lei escritas pelo próprio Deus e entregues a Moisés, duram o tempo suficiente para serem reduzidas a cacos ao descer do Monte Sinai e encontrar o povo praticando um ato de idolatria resultante da impaciência pela espera do profeta.
O reino de Israel alcança seu apogeu nos dias do Rei Salomão. Um magnífico templo é construído em Jerusalém para onde acorrem reis e adoradores de todas as nações. Morre Salomão, o templo é logo destruído e Israel se desintegra no exílio, onde desaparecem dez das doze tribos que compunham a nação desde seu princípio. Essa lista de fatos continua até os dias de hoje, se considerarmos toda a história do povo judeu, seu exílio e perseguições.
É notável a similaridade na dinâmica de todos os fatos: início, apogeu, prova e resultados da prova. Felicidade seguida de crise. Seria esta uma característica intrínseca deste mundo? Na verdade, o segredo do verdadeiro entendimento da Bíblia encontra-se na observação de que a maneira como reagimos e usamos nossos problemas para crescer é o que faz a diferença entre uma vida feliz e infeliz, ainda mais quando objetivamente não se pode fazer mais nada.
O mundo em que vivemos é caracterizado pela ação objetiva. Sem ação nada é possível. Gostaríamos que fosse diferente. Seria ótimo se apenas nossas inspirações pudessem alterar o rumo das coisas, ou mesmo nossas contemplações. No entanto, o que percebemos é que mesmo com inspirações ou contemplações, sem ação específica, nada acontece, de fato.
Deus imputa sobre o ser humano um estímulo inicial tal como o pai que segura as mãos de seu pequeno filho para que comece a andar. Logo após solta-as, sabendo que o bebê poderá cair e chorar. Se não for assim, jamais aprenderá a dar um passo.
Um mundo ideal é resultante de muita luta pelo aprimoramento interior de cada um. O sucesso só pode ser atingido mediante provas e testes muito severos. Os homens e mulheres da Bíblia foram, todos, submetidos a tais testes. E a grandeza de caráter que demonstraram ao reagir frente às provas é que os tornaram grandes inspirações para a vida de tantos que os seguiram até os nossos dias.
Este mundo poderá tornar-se num lugar ideal para habitarmos em completa paz e serenidade. Poderá tornar-se um espaço onde não haja lugar para armas ou para a guerra, maldades, violências ou atos cruéis. Um lugar onde todos venham a conhecer a felicidade e se esqueçam das lágrimas. O importante é que saibamos que todas estas coisas sempre foram possíveis ao homem no âmbito particular ou global. Dependem de seu esforço em optar pelo bem e por aquilo que produza bondade e elevação.
Absolutamente ninguém pode optar por mim mesmo naquilo que só pode ser optado por mim. Ninguém pode escolher ou realizar em meu lugar a parcela de ação por um mundo melhor que a mim cabe escolher e realizar. No novo milênio, a ação de cada ser humano continuará sendo responsável por sua elevação ou queda. No mundo das ações nada será de tamanha importância e consequência como a própria ação.
- ABRAHAM SHAPIRO é membro da Comunidade Israelita de Londrina

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