''A ilusão fatal do socialismo é pensar que se pode apressar o momento da recompensa encurtando o momento do esforço'', Roberto Campos (''Diário de um diplomata'').
Em artigo publicado na Folha de São Paulo, no dia 14/10/96, o senador José Serra indelicadamente comentou que na obra a ''Lanterna na popa'', escrita por Roberto Campos, havia ''muita energia e pouca luz''.
A crítica se deveu ao fato de Roberto Campos, possuidor de conhecimento, experiência e sabedoria infinitamente superiores aos de Serra ter demonstrado na época o efeito devastador do esquema patrocinado pelo senador como relator da Comissão Tributária da Constituinte, pela explícita incompatibilidade do sistema com a estabilização dos preços.
Roberto Campos morreu recentemente, aos 82 anos, depois de ter exercido muitos dos mais prestigiosos cargos da vida pública brasileira. Defendeu sempre idéias pouco palatáveis, sofrendo por isso ataques de toda ordem. Suas idéias, porém, ganharam a legitimação da história. Não é por acaso que Paulo Rabello de Castro, economista brasileiro da mais alta notoriedade, chamou-o de ''o herói da razão''.
José Serra, apesar da fragorosa derrota nestas eleições, continua vivo (será?) e na vida pública. Pesa sobre ele, porém, o fato de ter sido o mais inexpressivo dos candidatos à Presidência, experimentando sob qualquer ângulo que se queira olhar, fracasso político sem precedentes. Não conseguiu unir em torno da sua candidatura a base do partido que representava, e não ganhou, em qualquer fase da campanha, a confiança do eleitor.
O fracasso ganha proporção ainda maior se atentarmos para as recentes modificações do pensamento político da Europa. Países tradicionalmente socialistas, como Espanha, Portugal, Holanda e até mesmo a França, trataram de sepultar de vez o socialismo, a mesma doutrina que aqui alicerçou a campanha vitoriosa de seu antagonista quase iletrado.
José Serra, cuja candidatura veio derrotada de berço, não conformado com o fracasso latente, tratou de liquidar adversários que possivelmente fariam frente a Lula. A estratégia adotada para a derrubada de outros presidenciáveis e a sua constatada derrota, trarão consequências marcadas pela incerteza do futuro que nos espera; principalmente porque a ideologia que norteia o vencedor é baseada na velha bobagem formulada por Marx no século 19, que acredita ser a miséria de grande parte da população, cansada pela ganância insaciável da outra parte, que recebe hoje a denominação de elite dominante. Ao contrário do que prega o partido vencedor destaca-se como o valhacouto dos interesses corporativos de qualquer grupo capaz de se fantasiar de ''nacionalista'' ou ''progressista''.
De qualquer forma, talvez seja prudente neste momento, embebedar-se de esperança. Mas terá que ser um porre daqueles! Afinal, qualquer conhecedor da história sabe o que aconteceu com todos os países que adotaram o Leninismo/Marxismo. Quando a ressaca passar, reuniremos as sobras e, como eles, começaremos de novo. Já teremos, a essa altura, esquecido José Serra. Difícil será esquecer Roberto Campos, que ao responder às críticas recebidas na publicação da Folha de São Paulo, assim se manifestou:
''Num ponto o senador José Serra não comete injustiça. É ao dizer que em minha 'Lanterna na popa' há muita energia e pouca luz. Só que esta luz foi suficiente para que eu antevisse com décadas de avanço, a vitória do capitalismo liberal e das economias de mercado, enquanto o ilustre senador se entregava a farras ideológicas juvenis na UNE, defendendo doutrinas de nacional-estatismo e proto-socialismo que hoje passaram merecidamente, ao lixo da história...''
Roberto Campos era um profeta!
ONOFRE RIBEIRO DE ALMEIDA é tributarista, procurador geral do município de Cornélio Procópio e professor da Unespar/Faficop

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