No Japão, suicídio por descoberta de corrupção
A notícia chega numa hora de extrema indignação dos brasileiros contra tantas acusações de corrupção de seus homens públicos. Trata-se do suicídio, ontem, do ministro da Agricultura do Japão, Toshikatsu Matsuoka, tomado de vergonha por haver sido apanhado em caso de corrupção. Lá, como muitas histórias idênticas do Brasil, ele recebia propina de empreiteiras beneficiadas em licitações para obras ambientais. Corruptos e corruptores iguais. Com a diferença entre lá e cá de que em terras brasileiras ninguém se suicida por coisas assim.
Se os desmandos oficiais não são comuns no Japão, onde ainda impera um elevado grau de honradez dos administradores públicos e dos políticos em geral, quando um desvio dessa natureza acontece os envolvidos recorrem ao auto-extermínio. Porque a execração pública é fulminante e seria difícil a um homem desses (ou mulher) continuar vivendo com essa mácula. Quem é tangido pela desgraça de corromper-se pela apropriação direta ou indireta de dinheiro público, ou de outro atentado contra a pátria, não mais encontraria, se vivo, forma sadia de subsistência e não teria condições de conviver em sociedade. Ou no mínimo curtiria um longo período na cadeia.
Percebe-se a presença em tais casos da opinião pública, tão cáustica a ponto de tornar irrespirável a vida para esses desafortunados. Esta a palavra adequada, porque as irregularidades acabam aflorando e quem for apanhado nessa rede não terá outra saída senão desaparecer do cenário, pela morte, ou seja, a extrema autopunição. Isso remete para uma reflexão dos cidadãos brasileiros, que não se manifestam ante os casos do gênero que aqui acontecem e que são diários, porque neste exato momento está acontecendo, em pontos diversos deste país, alguma forma de corrupção no âmbito governamental e burocrático.
Essas tragédias japonesas - a corrupção e o suicídio consequente se o caso for descoberto - ocorrem pelo vexame ante o povo, que se posiciona e considera execrável quem comete tamanho delito. É como um linchamento, porque a pressão popular é insuportável. Se no Brasil os políticos e administradores públicos nem sequer se envergonham quando flagrados em histórias de corrupção, é porque não há sanção dos cidadãos. Se o dedo em riste de cada brasileiro fosse apontado para os corruptos, em todos os locais onde eles se encontrem, e se a sociedade os rejeitasse e os ridicularizasse em público, eles talvez não chegassem a gesto extremo como o do ministro japonês mas com certeza se aprumariam e a moralidade começaria a se instalar. Se, neste país, os demais Poderes não punem - até pela elasticidade das leis - o povo tem esse poder. Só falta começar a usá-lo.





