Nó górdio desatado
PUBLICAÇÃO
domingo, 13 de dezembro de 2015
Daniel Guerrini 
A sociedade civil está cindida. A sociedade política sem rumo. Não fôssemos aqui tomar certa distância do pensamento autoritário, que faz escola entre a esquerda e a direita, diríamos que faltam estatistas, políticos honrados, grandes projetos, etc. Falta mesmo ação política, deliberativa e discursiva. Construir consensos não, pois estes são conspícuos das manadas, não de um povo. É preciso convencimento. Faltam espaços, e habilidades, para o exercício da razão pública.
Mas como? A democracia brasileira é, de longa data, nosso nó górdio. Um mal-entendido, diria aquele pensador que mergulhou sobre nossas raízes. Turvo reflexo de uma forma acabada no velho mundo, a democracia aqui foi já reclamada pelos militares, fazendo ecoar as palavras de outro intelectual nosso, Oliveira Vianna. Em um país considerado sem povo, as forças armadas assumiram o projeto de governar segundo os "reais" interesses da nação. Em 64 foram os militares, hoje, demagogos profissionais. Lá a tragédia, aqui a farsa.
Para a tradição autoritária brasileira, um governo democrático é aquele que conhece e traduz bem os "verdadeiros" anseios e interesses da população. Essa última não teria cultura para a participação política e não lidaria bem com as formas associativas das instituições políticas ocidentais. Logo, seriam necessárias lideranças e governos centralizadores que conduziriam a sociedade rumo à modernização. Deixada por si só, a população brasileira tenderia a fortalecer o coronelismo e os particularismos regionais.
O Estado apresenta-se, então, como demiurgo. Essa a ideologia da nossa vida política. E vejam, este não é um debate meramente acadêmico. Basta observar a proliferação de ações e propostas cujo pressuposto é uma sociedade ainda a ser criada. De todos os lados, veem-se tais imposturas. Políticos que se propõem moralizar e civilizar a população. Políticos que, por isso e para tanto, reclamam seus cargos e funções como propriedade particular. Políticos que dizem e desdizem sem preocupar-se em lacerar qualquer princípio (desdém justificado, já que seriam eles o começo e o fim de toda ação política). Políticos, ou figuras públicas, ultrajadas ao serem eles próprios, ou a sua parentela, investigados.
Numa versão desesperadora da lenda frígia, não faltam aqui Alexandres. Cada um que sobe à cena desata o nó sem descompostura. São todos representantes do povo. São, antes de tudo, o povo! Por isso, também, inamovíveis.
Lenda e realidade encontram-se, refletindo-se uma à outra. Ao imediatismo da espadada que fundou um reinado, corresponde o imediatismo de uma esfera política criadora da sociedade que diz representar. Como resultado de uma ação grosseira, estão lá os políticos, preocupados com suas próprias alianças, convictos, com Oliveira Viana, de que "povo" não passa de uma categoria tão vazia quanto suas falas.
E assim seguimos, com um nó desatado na base da ação estratégica, tosca e traiçoeira. Se somos um país sem povo, nada mais condizente. Sem povo, a soberania não é popular. A fonte de legitimidade da esfera política não emana de nossas decisões e podemos restar demandando decência e outros moralismos, assim como moeda forte, poder de compra, auxílios e benefícios. Não há convencimento a se cumprir, pontes a erguerem-se entre as partes da sociedade, nem mesmo deliberação a se realizar. E a nossa democracia nasce com a morte da política.


