No futebol como na vida dos cidadãos
A falta de espírito conjunto da Seleção, demonstrada em todos os seus jogos na Copa do Mundo, é bem o retrato da gente brasileira: tem habilidades individuais mas não sabe atuar em grupo na busca de suas conquistas. Assim como os jogadores em campo, os cidadãos não se empenham em buscar a jogada, mas vão recuando e deixando acontecer, e assim as oportunidades se esvaem e o adversário avança e triunfa. A ausência de garra é muito evidente. No futebol, os astros brasileiros tão cantados em verso e prosa não fazem pressão, só esperando as sobras de bolas, e também não sabem como fazer se enfrentam times que jogam nesse esquema. Na vida comum dos patrícios não é diferente. Se é preciso organizar-se e enfrentar as adversidades de quem marca sob pressão governantes incompetentes e corruptos, poder econômico espoliador, leis anacrônicas, tiranos que lhes impõem normas arbitrárias e os prejudicam não oferecem resistência e deixem que avancem. Depois lamentam e choram, como fazem os jogadores quando a batalha já está perdida. Com jogadas individuais que não interajam com todo o grupo, será siscar em círculos isolados, o que pode ser um belo espetáculo de firulas mas sem proveito do resultado final. Assim com os cidadãos, que esperneiam e resmungam individualmente diante das arbitrariedades e das injustiças, mas não sabem organizar-se politicamente e formar barreiras de enfrentamento. Em campo, o comodismo de esperar que a bola chegue aos pés, sem buscá-la onde ela está livre nos espaços abertos ou sob o domínio do adversário e no dia-a-dia de cada indivíduo o idêntico procedimento. O esforço de cada brasileiro é grande na tática do cada qual por si, e não lhe faltam aptidões, mas a jogada se dá no próprio reduto e assim o círculo se estreita e a progressão fica mais difícil. Às vezes dá certo, quando o competidor é frágil e joga no mesmo sistema. O individualismo, no futebol e no jeito de ser do brasileiro, é marca forte, e assim as vitórias raramente são alcançadas. Viu-se na participação brasileira desta Copa um punhado de estrelas, mas sem garra, com preguiça de correr e alcançar a bola ou buscar tirá-la dos pés alheios. Assim, assistiu-se a um grupo de fantoches no meio do campo, que em mais de noventa minutos não conseguiram chutar uma só vez, como perigo, na direção do gol. O pior dos times dos rincões da pátria faria melhor. O que se imaginava que fossem os ''maiores jogadores do mundo'', logo se viu que não eram. O grande time que forma a nação brasileira tem quase 200 milhões de aptos e habilidosos experts em tantas posições, mas deixam que os adversários os subjuguem, e estes não são tão poderosos assim, porém passaram a ''gostar do jogo'', porque ninguém lhes dá combate. Esses adversários são os governantes e seus abusos e deboches em cima do povo, a pesada carga tributária que impõem, o juro extorsivo do sistema financeiro, os maus atendimentos aos cidadãos, a burocracia emperradora, o descaso dos atendentes públicos desde o presidente da República até o guarda municipal da esquina. Cada um destes faz gol facilmente, com chutes, cotoveladas, com mão na bola (ou nas boladas), ou de rasteira, contra uma nação formada de craques mas que não sabe jogar unida.





