No campo minado em que se transformou o Senado, desde que surgiram denúncias por quebra de decoro parlamentar contra o presidente da Casa, senador Renan Calheiros, os senadores estão pensando duas vezes antes de arriscar qualquer passo em direção à apuração dos fatos. Em visita à FOLHA, o senador Cristovam Buarque (PDT-DF) admitiu que os políticos não se sentem à vontade nem para arquivar, nem para dar prosseguimento ao processo que corre no Conselho de Ética contra Renan. Hoje, no entanto, o Brasil deverá saber até onde vai a coragem do Senado Federal, que terá de decidir se continua ou não investigando o colega mais poderoso.

Como o senhor analisa as denúncias envolvendo o presidente do Senado?É péssimo para a Casa porque não é um fato isolado. É a continuação de 15 anos de escândalos desde os anões do orçamento em 1992. Mas não é só isso. Existem três escândalos escondidos que, a meu ver, são mais graves do que a própria corrupção. Um é a falta de sintonia entre a pauta do povo e a agenda do Congresso, porque não estamos discutindo os problemas do povo, nem encontrando soluções claras para eles. Segundo, é a irrelevância do Congresso hoje. O Congresso age, de um lado, pressionado pelas medidas provisórias do Executivo e, de outro, pelas liminares do Poder Judiciário, que se intromete, às vezes, pela omissão do próprio Congresso. Não existe uma República quando um poder que deveria ser o mais importante, porque representa o povo, fica de fora. A outra razão é que estamos hoje num tempo sem causas. Não se vêem debates em torno de causas, de propostas. Em 13 de maio de 1888, o povo jogou flores nos senadores que votaram a Lei Áurea. Hoje, são todos ou execrados pela corrupção ou ignorados.

O Lula não tem oposição hoje?
Não, tem críticos. Oposição é quando você enfrenta. Crítica é quando você denuncia corrupção e hoje é só isso. Qual é a discordância do PSDB com o Lula no que se refere à linha de Governo? Não tem. Quando tem é por algum interesse estadual. Não há choques de idéias.

Os políticos pioraram com o tempo?
Ficaram sem causa. É uma maneira de dizer que pioraram. Não têm a causa da reforma de base, da democracia, do socialismo. Fui ao 1º de Maio no evento feito pela Força Sindical com um milhão de pessoas e chamei o mestre de cerimônia para pedir que me chamassem como professor e não como senador. É triste, mas havia o risco de ser vaiado.

Voltando às denúncias contra Calheiros...
São duas as precauções. Primeiro, precisamos estar seguros de que o povo vai entender nossa posição. Segundo, que não sejamos surpreendidos com notícias incriminatórias contra o presidente posteriores à decisão.

O senhor avalia que o descrédito com a Casa pode aumentar dependendo da decisão do Senado e diante das contradições existentes nos documentos apresentados por Calheiros?
Claro, mas felizmente não se decidiu pelo arquivamento ainda. Se adiou pelo menos e vai se ter mais alguns dias (até hoje).

Mas o senhor sinceramente acha que a posição do Senado pode mudar?
Acho que ainda pode mudar. As reportagens ainda vão repercutir no Congresso.

O processo não foi conduzido de maneira questionável pelo Conselho de Ética?
Não só conduziu de maneira questionável como passou a idéia de que estava ali apenas para abafar. Isso é horrível para a democracia e uma tragédia pessoal para nós.

A população está chegando no limite da paciência?
Acho que sim, como chegou na Argentina, onde o povo foi para a rua bater panela e gritar ''Que se vayan todos'' (algo como ''fora todos'').

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