"Até quando, ó Catilina, abusarás da nossa paciência?" A frase é a mais marcante do cônsul romano Marco Túlio Cícero dentro dos famosos discursos contra o senador Lúcio Catilina, acusado de tentar dissolver o Senado com a intenção de tomar o poder em Roma. O ano era 63 a.C. Pois esses discursos foram a inspiração para o nome da nova fase da Lava Jato, a Operação Catilinárias, que promoveu buscas e apreensões nas casas e nos escritórios do presidente da Câmara, deputado federal Eduardo Cunha (PMDB-RJ). A Catilinárias é, na verdade, um desdobramento da Operação Lava Jato, e foi autorizada pelo ministro Teori Zavascki, do Supremo Tribunal Federal (STF), a pedido do procurador-geral da República, Rodrigo Janot. Embora o nome da operação pareça ser um desabafo contra Cunha ("até quando abusarás de nossa paciência"), a ação realizada pela Polícia Federal (PF) levou o PMDB para mais perto do escândalo de corrupção que envolve a Petrobras. Isso porque Cunha não foi o único alvo da Catilinárias. Os policiais federais cumpriram 53 mandados de busca e apreensão em locais que incluem as residências do presidente da Câmara, no Rio de Janeiro e Brasília, dos ministros Celso Pansera (Ciência e Tecnologia) e Henrique Eduardo Alves (Turismo), ambos do PMDB, e dos senadores Edison Lobão (PMDB-MA) e Fernando Bezerra Coelho (PSB-PE). Embora não tenha sido alvo direto de um mandado de busca, o presidente do Senado, Renan Calheiros, também foi objeto desta operação, porque apreensões foram feitas na sede do PMDB de Alagoas, que é comandado por Renan. Mas o centro das atenções dessa nova fase da Lava Jato foi mesmo Eduardo Cunha. E se o dia começou ruim para o presidente da Câmara, no decorrer da manhã ele teve que amargar sua primeira derrota no Conselho de Ética da casa. Após sete adiamentos, o conselho conseguiu, por 11 votos a nove, aprovar parecer preliminar que dá sequência ao processo de cassação contra Cunha. É apenas a fase inicial, onde a junta reconhece que há indícios mínimos para dar prosseguimento ao processo. Muita coisa ainda deve acontecer, mesmo porque Eduardo Cunha é famoso por criar manobras que possibilitem a ele impor suas regras ao funcionamento da Câmara. Ele conta com uma frente de aliados poderosa, situação que ficou evidente nas sessões anteriores do Conselho de Ética. Mas é fato que 15 de dezembro de 2015 é uma data histórica para o povo brasileiro, pois nove políticos com foro privilegiado, entre eles os presidentes da Câmara e do Senado, tiveram seu sossego abalado às seis horas da manhã pela Polícia Federal. Amanhã ou depois, talvez, o cidadão possa afirmar que a classe política brasileira não está acima das leis.

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