Após morar entre os curdos do norte do Iraque desde o ano passado, o pesquisador brasileiro Paulo Roberto Galerani, da Embrapa Soja em Londrina, está acostumado a viver em estado permanente de alerta. Participante do programa SCR 986-Petróleo por Alimento (Oil for Food), desenvolvido pela Organização das Nações Unidas (ONU) após a invasão do Kwait pelo Iraque, em 1.991, ele conta que os habitantes do Curdistão Iraquiano vivem em constante conflito com o governo do sul do país.
Encarados como ''amigos'' dos americanos, por terem apoiado os EUA durante a Guerra do Golfo, os curdos temem sofrer retaliação caso haja um ataque norte-americano ao Iraque. ''Se houver ataque, o Iraque vai atacar os 'amigos dos Estados Unidos''', disse, referindo-se também a outros povos que devem apoiar o ocidente caso seja deflagrada a guerra.
Maior povo sem pátria do mundo, os 30 milhões de curdos fixados na região entre norte do Iraque, oeste do Irã, Leste da Síria e sul da Turquia são considerados invasores pelo governo de Saddam Hussein. ''A divisão política é feita por exércitos, que ficam cara a cara'', conta o pesquisador.
Ele confirma a existência de tropas norte-americanas na região. Apesar do apoio, esclarece que os curdos não confiam nos Estados Unidos, pois após a Guerra do Golfo o país ocidental se retirarou do norte do Iraque sem prestar qualquer tipo de apoio. Caso haja um conflito bélico, a expectativa é que seja curto. ''A pressão sobre Sadam Hussein é muito grande'', opina.
Galerani trabalhava com outros 40 consultores internacionais que repassam tecnologias agrícolas para os curdos. Além deles, existem especialistas estrangeiros de outras áreas trabalhando no local. Apesar do risco bélico, o pesquisador conta que ficava relativamente tranquilo no Iraque. ''A ONU tem um esquema de segurança preparado'', comenta.
Em situação de conflito, as equipes da organização que ainda estão no Curdistão tentarão deixar o Iraque pelo Irã ou pela Turquia. ''A idéia é sair de carro'', esclarece Galerani, que retornou a Londrina há duas semanas e manifestava intenção de voltarpara o Oriente Médio.
Questionado sobre os motivos que o levariam a retornar, ele diz que se sente responsável pela finalização do programa, cujos resultados são muito importantes para o desenvolvimento econômico dos curdos. Em sua segunda estadia no Oriente Médio, afirma que a primeira decisão de ir para o Iraque foi movida pelo desafio. ''Agora, voltaria porque não quero deixar o trabalho pela metade.''
Se o Iraque for derrotado, o programa Petróleo por Alimento será extinto. ''Mas há projetos para recuperar o país em programas de longo prazo'', afirma ele, que ficaria na região até maio. ''Após essa data, não pretendo mais retornar, a não ser que a situação política seja diferente e eu possa levar minha família.''

mockup