No Ceará é possível
PUBLICAÇÃO
domingo, 22 de junho de 1997
Antoninho Marmo Trevisan 
É bom constatar na prática que algo de novo está acontecendo no Brasil, e para melhor. É o caso de certas empresas no Ceará que acabo de visitar. Pólos industriais foram criados em cinco regiões distantes 30 a 50 km da capital, Fortaleza. Em geral, em áreas miseráveis e carentes de desenvolvimento. As empresas ali instaladas passaram a contar com apoio creditício e a infra-estrutura necessária. Um primeiro resultado foi alcançado. A cidade de Fortaleza - de notável beleza natural pelas suas praias e clima agradável - foi preservada para atender ao fluxo turístico cada vez maior. Os pólos industriais ao redor dela funcionam como uma espécie de cinturão que atrai mão-de-obra e fixa os habitantes da região nos seus locais de origem. Com enormes ganhos sociais.
Visitei uma dessas empresas, a LAM Confecções, que produz jeans para marcas classe A daqui e dos Estados Unidos. Encontrei um exemplo de indústria. É competitiva, produz com alta qualidade, usa tecnologia adequada e sua fábrica é limpa, arejada, enfim, um local onde os operários e muitas operárias trabalhavam com visível satisfação. Enquanto visitava a fábrica, percebi que nossa presença não chamava a atenção das costureiras, entretidas em dar conta do seu trabalho, sem que ninguém as vigiasse. Elas trabalham em equipes. Participam dos lucros e dos resultados.
E a sujeira provocada pela lavagem do jeans? Como estariam contaminando os rios? Fui checar. Uma água turva e azul saía das lavanderias e após sucessivos processos de decantação, retornavam límpidas para nova operação. Vi com meus olhos com que orgulho o responsável pela operação colhia a água num copo e demonstrava o resultado final. Uma beleza! Mais surpresas. Junto à fábrica também funcionava uma cooperativa de trabalhadores, em fase experimental, que cuidava do acabamento final das calças maravilhosas que iam embarcar para as butiques mais sofisticadas do Brasil e do mundo.
E era gente que trabalhava com excepcional destreza. Adquirida como? Com treinamento. Aí, fico sabendo que um programa do governo do Ceará garantia a qualquer empresa que lá se instalava o treinamento e adestramento da mão-de-obra por um período de 60 a 90 dias. E nessa base cada trabalhador, mesmo sem produzir nada, recebia um salário mínimo por mês. Simples, barato e eficaz. E a empresa, de quebra, mantinha uma fundação voltada para a comunidade. Sabem para quê? Para ajudá-la na solução dos seus problemas cotidianos e no encaminhamento dos mais elementares pleitos. Ah, de quebra, a empresa mantém um clube para os empregados (auto-suficiente porque promove shows abertos ao público), que de tão bem organizado servirá no próximo mês, pasmem, para um congresso regional da CUT.
Este é o nosso Brasil que consegue surpreender e produzir iniciativas como essa do Ceará, onde empresas e empresários como a LAM e o Sr. Antônio Marcos Nunes, que até no nome da sua empresa demonstrou sensibilidade humana. São as iniciais dos nomes dos seus filhos.


