A criança deve ser uma prioridade de todos os dias na lista de ações dos governos dos três níveis. Existem programas em andamento tanto quanto propostas de prefeituras, governos estaduais e do Palácio do Planalto. No entanto, esparsas e folgadas no meio de muitos outros projetos, as proposições destinadas à criança e ao adolescente, quando muito, aparecem em colocação nada privilegiada numa lista de prioridades. Recentemente, em suas edições dominicais, este jornal publicou reportagem sobre o tema, em que a constatação é única: pode haver boa vontade de alguma parte, mas políticas governamentais ousadas são desconhecidas. E, como já se tornou regra no Brasil, programas costumam funcionar quando são bancados por organismos da sociedade civil.
  Neste 12 de outubro, milhares de crianças brasileiras esperam por uma chance de se tornarem cidadãs, com direitos básicos garantidos pela carta constitucional do País. Bom número delas vive na miséria, resultado das más condições de vida de suas famílias. Habitam moradias precárias e, como numa guerra, alimentam-se de rações: se há feijão e arroz hoje, amanhã a cota pode ser reduzida a um único item. Ou, nenhum.
  A questão da saúde também é grave. Infelizmente, o serviço público avançou desproporcionalmente, com resultados excelentes em algumas localidades e péssimos em outras. Num Brasil de diferenças regionais gritantes, inclusive no aspecto do desenvolvimento econômico e social, a máquina governamental sofre abalos de acordo com a característica de quem é convocado para fazê-la funcionar. Interferências políticas costumam deixar a zero os programas, e isso é muito flagrante na área da saúde.
  O mesmo ocorre com a educação, a cultura, o lazer, a promoção social e tantas outras áreas. A educação, nestes tempos, ganhou enfoque quase que de privilégio. Mal pago e sem estímulo, o mestre enfrenta dificuldades nas salas de aula. Como ensinar alguém que vai à escola para não perder a merenda. E que em seu convívio depara-se com a criminalidade à porta de casa? Difícil missão a de educar alguém nestas condições.
  Sim, iniciativas existem, mas são poucas e nem sempre conseguem funcionar da maneira que seus autores gostariam. Os recursos são insignificantes e até estes, algumas vezes, são desviados de suas finalidades por malandragem do sistema. Assim, famílias mais abastadas conseguem estudar seus filhos, do ensino fundamental ao superior, em pé de desigualdade com outras que enfrentam no cotidiano problemas que, por força das circunstâncias, acabam se tornando mais importantes que a escola dos pequenos. Com isso se mantém a enorme distância que separa um povo do outro. Infelizmente, é assim: o lado rico e o lado pobre. A criança ainda espera uma proposta por parte das autoridades que governam este País.

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