Já começaram os piparotes, os malabarismos, os efeitos especiais, os golpes de mágica. Nada mais natural. É a eleição que vem chegando e provoca toda essa movimentação. Vale tudo para vencer chute abaixo da linha da cintura, berraria e muito teatro. É a melhor maneira de encobrir o importante, o que deve ser discutido, os fatos que estão postos, a dura realidade.
Nesse ponto é preciso esquecer os candidatos por um tempo e tratar do que está em jogo nessa eleição. Até porque os candidatos, por enquanto, não querem entrar a fundo no problema. Mas o que está em jogo afinal nesse momento? O que está, ou deveria estar, em discussão, é a mudança pela qual passou o Estado brasileiro na década de 90.
Foram alterações drásticas. Para alguns elas foram necessárias, mas colocadas em prática de forma estapafúrdia. Para outros foram modificações exemplares, fundamentais. E ainda para uns outros se resumiram num verdadeiro escândalo.
A verdade é que foram alteradas as relações do Estado com os mercados financeiros internacionais; o pacto de direitos e deveres, em particular os do trabalho; as relações entre Executivo e Legislativo e entre a União e a Federação. Foi uma época de inúmeras reformas constitucionais, multiplicação do uso de MPs que resultaram, não numa reforma administrativa ou gerencial do Estado, mas numa profunda mudança de programa colocada em prática.
O modelo em questão agora está em crise. Uma crise bem visível na economia, com todas as dificuldades nas contas; no que se refere ao social, com o desemprego e o aumento da violência com todas as consequências a que levam esses condicionantes; e uma crise da ética, com a erupção de denúncias de corrupção por todos os lados.
Os números estão aí. O PIB já está andando de lado. O País vai pagar 22% a mais de juros neste ano. Estão projetados gastos de R$ 70 bilhões para 2001. É bom guardar o número: R$ 70 bilhões. Desde 1998 até 2000, foram economizados R$ 52 bilhões da arrecadação de impostos para o pagamento da dívida, mas o pagamento dos juros consumiu R$ 214,3 bilhões. Hoje, a maior parte do endividamento público deve-se ao acúmulo de juros e não ao excesso de gastos. É alarmante e ainda querem cobrar imposto dos velhinhos aposentados, dos ''avuelitos'', como na Argentina.
Aqueles que achavam graça na ingenuidade dos que tomavam susto com a extensão das reformas. Que achavam retrógrados, para não dizer idiotas, os que questionavam as mudanças estão agora olhando de quina. No caso das relações do trabalho, o governo flexibilizou salários, aposentadorias, direitos dos empregados, o diabo, mas continua dando salários de R$ 30 mil para funcionários. Às vezes, R$ 60 mil para famílias de sortudos.
São estas as questões que precisam estar em discussão nas próximas eleições. E aí parece que as oposições não estão preparadas para entrar num debate desse nível. E o governo insiste que tudo está bem e, se o seu candidato vencer, irá ficar melhor ainda. Diz que com o controle da inflação, racionalidade fiscal e tributária e orçamentos sustentáveis a coisa vai.
O ministro Pedro Malan, o grande cruzado da política econômica do governo, disse para os senadores que o problema não é o tamanho da dívida, mas a capacidade do governo de financiar a sua rolagem, e que o prazo aumentou 29,8%. Se é bem assim por que cortar tantas despesas?
Seria bom saber de quem é a responsabilidade de tudo o que está acontecendo. Não para pendurar a cabeça do responsável em um poste de praça pública. Mas para analisar quais a correções que poderão ser feitas daqui para frente. Para que não se cometam mais erros.
Muito bem. Agora nós podemos voltar aos candidatos à sucessão de Fernando Henrique. A crise logicamente será tema de campanha. O sucesso de determinada candidatura pode estar na forma de apresentar justamente as correções que devem ser feitas. Mas sempre levando em conta um detalhe que é fundamental: os caminhos apontados precisam não assustar a sociedade e devem ser, necessariamente, inteligíveis para o eleitorado.
Existem duas opções: as eleições podem transcorrer tendo como linha mestra essa discussão, ou podem ser travadas no berro.


- FERNANDO JOSÉ DIAS DA SILVA é jornalista em São Paulo

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