O festejado sociólogo francês Pierre Bourdieu faz uma pergunta instigante: será que no sistema atual pode-se falar na corrupção das pessoas? Bourdieu acha que esse tipo de particularização mascara o diagnóstico da verdadeira corrupção - a corrupção estrutural que se exerce sobre o conjunto do jogo através de mecanismos como a concorrência pelas fatias de mercado.
Seguindo esse raciocínio do professor francês pode-se dizer que o que anda acontecendo por aí são apenas trocas de comissõezinhas que fazem as coisas andarem. Mas é complicado. A tese de Bourdieu significa que, se tudo é feito em busca do lucro, não há o que reclamar sobre os métodos e suas implicações morais. O sociólogo, é claro, está colocando em prática toda a sua capacidade de exercer o cinismo. Ele alerta nesse sentido para o perigo do mundo sem regras, sem freios, sem normas de procedimento, onde prevalece a lei do mais forte na escala social.
Se fosse assim não haveria necessidade dessa inflação de CPIs que está deixando sem sono muita gente que, até bem pouco tempo, tinha a sobriedade e a retidão no trato com o dinheiro público como grande capital. Ou então, usando o sarcasmo de Bourdieu, poderíamos dizer que os meninos do Ministério Público do Rio de Janeiro estavam desinformados sobre até onde poderiam ir no caso do Banco Marka. Mas promotor novo tem o péssimo vício de acreditar. O resultado desse mal-entendido é que eles entraram no apartamento do ex-presidente do Banco Central, Francisco Lopes, e descobriram bilhetes revelando que havia uma conta de US$ 1,6 milhão no exterior, teriam descoberto também uma agenda com os telefonemas que teriam sido dados, para banqueiros no dia anterior à desvalorização do real.
Assuntos que segundo um integrante da CPI dos Bancos são mais fortes do que nitroglicerina pura. Um vírus com maior poder de contaminação do que o ebola se forem confirmados os primeiros diagnósticos. Diante de tal situação, os bombeiros nunca foram tão requisitados para tentar limitar as áreas de sinistros.
O que pode ser uma catástrofe que está se anunciando com a CPI dos Bancos é culpa única e exclusiva da falta de coordenação do governo para aquietar seus aliados. Fernando Henrique, conciliador como sempre, diz que há exagero, que é preciso saber se insinuações que estão se fazendo são verdadeiras e, mesmo se forem, é preciso tentar punir os responsáveis e não tentar desestabilizar as instituições. Como posição oficial, o presidente só poderia ter esse discurso, embora alguns políticos tenham desaconselhado FHC botar a mão nessa cumbuca.
Além disso, o presidente sabe muito bem que as coisas não funcionam assim, que depois de uma montanha de material pouco nobre ser jogado no ventilador as instituição podem ficar abaladas. A promiscuidade entre os círculos financeiros, se for provada, ou mesmo se pairar alguma dúvida sobre essa suposta ida e volta de informações que rendem milhões para aqueles que têm o costume de conversar em voz baixa pode respingar nas instituições sim.
A CPI dos Bancos, de autoria do presidente do PMDB, Jáder Barbalho, só vingou porque Antonio Carlos Magalhães, do PFL, insistiu na CPI do Judiciário. Na Câmara Federal ainda conseguiram cercar a vaca que ia em desembestada carreira para o brejo. Mas no Senado não. Também outras diferenças adormecidas afloraram com a CPI dos Bancos. Um exemplo foi a trombada entre Fernando Henrique e Covas. O presidente, no primeiro momento, defendendo Chico Lopes. E o governador de São Paulo cobrando rapidez na apuração, dizendo que era preciso furar o tumor.
- FERNANDO JOSÉ DIAS DA SILVA é jornalista em São Paulo

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