O professor de antropologia da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Celso Bezerra de Menezes, não vê problema algum em festejar um Natal ''europeu''. Ele explica que a origem do Natal é uma festa pagã que comemorava o solstício de inverno no hemisfério norte. ''A comemoração do nascimento de Cristo no dia 25 de dezembro foi decretada por um papa católico que usou esta fórmula para cristianizar a festa. Nós fomos colonizados por povos ibéricos e eles trouxeram o Natal da Europa. A festa acabou reproduzida aqui tal qual era lá'', detalha.
Foi só no início do século 20 que papai noel entrou nesta festa. ''Ninguém sabe ao certo a origem dessa figura, o que é verdade e o que é lenda. É uma tradição nórdico-européia que também desembarcou no Brasil. Aqui a gente vê a junção do Natal cristão de presépio com a mística da crença na árvore e ainda a lenda de papai noel, tudo isso numa só festa'', aponta Menezes.
Para o professor, essa é exatamente a coisa mais positiva do nosso Natal: ''Usar esses símbolos não é sinal de pobreza cultural. O que interessa é o sentido que essas coisas fazem aqui. Quando a gente traz alguma coisa de fora é porque ela faz algum sentido ou tem alguma utilidade para nós'', assegura.
A resistência em alterar os símbolos natalinos têm razão de ser, segundo o professor. É que os símbolos ganham valor por fazerem parte de um ritual e o ritual só se estabelece pela repetição. ''Quando se fala em ritos e tradições, eles só funcionam porque são sempre iguais. Papai noel só é papai noel daquele jeito. Se a gente mudar essa imagem, ela não é mais papai noel''. E para quem acha que o ''bom velhinho'' é apenas uma apologia ao consumismo, Menezes faz uma crítica: ''No mundo atual, tudo é produto, tudo é regido pela mesma lógica mercantilista. Isso aconteceu com outras festas populares como o Carnaval e as festas juninas. Tudo é vendido e comprado, desde as fantasias, aos ingressos e doces. Porque só o Natal e o papai noel iriam ficar de fora? Para ser coerente a gente teria que mudar tudo''.
Com um olhar diferente, que analisa costumes e símbolos de uma forma mais profunda, Menezes observa que o Natal brasileiro é único. ''Desde os tempos da colonização convivem no Brasil o sagrado e o profano, lado a lado, e essa é justamente a coisa mais bacana do povo brasileiro: a capacidade de colocar coisas que parecem contraditórias juntas. Por isso o nosso Natal não é igual ao europeu. Aqui tem peru com cabrito, leitoa, papai noel com manjedoura, Jesus Cristo negro, melancia com damasco... O importante é o sentido que as coisas têm e não de onde elas vieram ou quem as inventou''. (P.F.)

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