Ninguém pode ficar para trás
PUBLICAÇÃO
sábado, 20 de junho de 2020
null 
No último dia dez de junho na celebração do Dia de Portugal e Camões, o cardeal Tolentino, escolhido pelo presidente da República de Portugal para presidir às cerimônias oficiais, no mosteiro dos Jerônimos, proferiu um discurso extraordinário e paradigmático. Tudo o que qualquer país precisa ouvir neste momento histórico que o mundo atravessa.
Dizia ele, inspirado nos Lusíadas, do maior poeta português: “...No itinerário de um país, cada geração é chamada a viver tempos bons e maus, épocas de fortuna e infelizmente também de infortúnio, horas de calmaria e travessias borrascosas. A história não é um continuum, mas é feita de maturações, deslocações, rupturas e recomeços. O importante a salvaguardar é que, como comunidade, nos encontremos unidos em torno à atualização dos valores humanos essenciais e capazes de lutar por eles (...)!
A tempestade descrita por Camões recorda-nos, assim, a vulnerabilidade, com a qual temos sempre de fazer conta. As raízes, que julgamos inabaláveis, são também frágeis, sofrem os efeitos da turbulência da máquina do mundo. Não há superpaíses, como não há super-homens. Todos somos chamados a perseverar com realismo e diligência nas nossas forças e a tratar com sabedoria das nossas feridas, pois essa é a condição de tudo o que está sobre este mundo...”
O guardião do Arquivo do Vaticano, lembrava aos conterrâneos, que o respeito pelas gerações era imprescindível para superar a crise do momento. “...reabilitar o pacto comunitário que é a nossa raiz. Sentir que fazemos parte uns dos outros, empenharmo-nos na qualificação fraterna da vida comum, ultrapassando a cultura da indiferença e do descarte.
Uma comunidade desvitaliza-se quando perde a dimensão humana, quando deixa de colocar a pessoa humana no centro, quando não se empenha em tornar concreta a justiça social, quando desiste de corrigir as drásticas assimetrias que nos desirmanam, quando, com os olhos postos naqueles que se podem posicionar como primeiros, se esquece daqueles que são os últimos.
Não podemos esquecer a multidão dos nossos concidadãos para quem a Covid-19 ficará como sinônimo de desemprego, de diminuição de condições de vida, de empobrecimento radical e mesmo de fome. Esta tem de ser uma hora de solidariedade...”
Ora, como bem sabemos, a gênesis da civilização está exatamente no momento em que a comunidade dos humanos cuidou e esperou a recuperação dos feridos para continuar a marcha. Num Brasil de retalhos como o nosso, as elites econômicas e intelectuais devem entender que não existe caminhada possível de sucesso, sem que todos façam parte dessa procissão, como protagonistas.
Um país não vai a lugar algum com atitudes canibalescas e autofágicas. O sangue dos irmãos nos torna responsáveis e cúmplices. Pelo simples fato de sermos membros da mesma comunidade e especificamente da mesma nação.
A Covid-19 veio nos unir. E apesar de vivenciarmos um momento extremamente belicoso e politizado não podemos fugir deste chão comum em que todos somos vítimas e algozes.
Alguns mesquinhos em vários quadrantes da vida nacional sempre provocaram luta de classes ou desconfianças fraternas, em busca de dividendos iníquos e perversos. Não cair nessa esparrela é sabedoria para a sobrevivência nos tempos atuais. Ver na empregada doméstica ou no porteiro um sócio do mesmo empreendimento revela a grandeza de quem não acredita em voo da solo!
O Brasil racista, machista, discriminatório e tremendamente desigual não será feliz! Os muros e os fossos a cada dia mais ostensivos e provocatórios são o contrário do país que todos desejamos. Apesar de missionário, também eu escolhi estas terras para viver. A maioria absoluta dos que atendem pelo nome de brasileiros é descendente de gente que para aqui veio, sonhando com uma terra de leite e mel. E muitos hoje, teimosamente, não mudam de país porque ainda neste acreditam.
Mudar o Brasil pode parecer impossível, mas como nos lembra Tolentino, quem constrói uma casa, constrói uma cidade.
Padre Manuel Joaquim Rodrigues dos Santos, Arquidiocese de Londrina


