É desalentador que a expectativa dos brasileiros tenha chegado a este ponto, mas a verdade é que ninguém esperava que a moralidade prevalecesse, no âmbito da vida pública. O foco em questão é a absolvição do senador Renan Calheiros, que 4 horas e meia após renunciar à presidência do Senado recebeu o beneplácito de 48 dos seus pares. Perder o mandato significaria ''perder o próprio sentido da vida'', pronunciou ele, depois de escapar da cassação. Natural que há um grande sentido em ser político neste país, porque equivale a ingressar no universo da imunidade e da impunidade, com faustosos ganhos e poder incomum.
Como disse a chamada da primeira página de ontem deste Jornal, refletindo a triste realidade, deu a lógica e foi apenas um circo, cujos protagonistas converteram em palhaços os que estavam do lado de fora: os milhões de brasileiros. A surpresa seria se a corporação votasse na consonância do relatório acusando Renan de falta de decoro parlamentar. Seria esperar demais dos redutos cavernosos da vida política brasileira. As coisas, no Brasil, funcionam às avessas quando a questão é julgar os desmandos na esfera parlamentar e governamental em geral.
Já desde a abertura da sessão, que foi secreta, o clima era de absolvição e voltado mais para a discussão sobre quem irá suceder o renunciante (e o presidente interino da Casa), o que deve ocorrer dentro de uma semana. Nenhuma preocupação com a opinião pública, que conta pouco para os políticos, os governantes e no geral a maioria das autoridades. Para os caçadores de votos, o povo só tem valor nos períodos pré-eleitorais.
''Isto aqui não parece sessão de julgamento'', porque ''está todo mundo falando de tudo menos apresentando acusação e defesa'', protestou o senador Pedro Simon, do mesmo PMDB do então acusado. Já em setembro o senador alagoano havia sido absolvido pelos pares, no caso da acusação (uma das várias) que lhe pesava de ter utilizado um lobista para pagar suas despesas pessoais, incluindo a pensão alimentícia da jornalista que teve com ele uma filha.
Renan Calheiros proclama vitória, e esta certamente é a sensação dos que o inocentaram, mas no conceito da opinião dos brasileiros, sem qualquer dúvida, o que acaba de ocorrer é mais uma derrota da moralidade pública e o aumento da descrença do povo nas instituições. Os cidadãos foram mais uma vez derrotados. Renan continua no cargo e candidatíssimo à reeleição nos próximos pleitos, porque, repetindo o que ele disse, a perda do mandato significaria perder o próprio sentido da vida. Fica assim sepultada a probidade e restaura-se o que faz sentido na vida dos maus políticos.

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