A revista ''The Economist'' publicou no início do mês um ligeiro comentário (reproduzido, como regularmente às terças-feiras, no encarte do jornal ''Valor Econômico'' do último dia 11) comparando o crescimento do PIB mexicano com o brasileiro. Com a irreverência habitual, ela diz que os brasileiros devem ter tomado um choque ao receber a notícia que a economia do México tornou-se a maior da América Latina, deixando o segundo posto ao Brasil.
Os dados usados pela revista se relacionam ao PIB medido em dólares, para o período de 12 meses completados em junho último, levando em conta que no segundo trimestre de 2001 a economia brasileira cresceu apenas 0,8% em relação ao mesmo trimestre do ano passado.
O texto faz a ressalva que não se deve perder de vista que ''taxas de câmbio às vezes somente servem para revelar meias-verdades'', mas não perde a oportunidade de fustigar duramente a nossa auto-estima, ao comentar que logo seremos ultrapassados pelo México no ranking futebolístico, ''se mantido o atual desempenho''... da Seleção Brasileira, creio eu. Neste caso, infelizmente, com inteira razão...
No que se refere, porém, ao tamanho do PIB, não devemos (ainda) ''jogar a toalha''. A estatística é enganosa, porque está muito influenciada pela valorização da moeda mexicana e pela desvalorização do real, frente ao dólar.
Como a avaliação do PIB dos dois países inclui a flutuação do câmbio, significa que se está elevando artificialmente o PIB mexicano, em dólares e, de outra parte, reduzindo também artificialmente o PIB brasileiro. Quando se faz a estimativa com base na paridade do poder de compra (que é a medida adequada, pois leva em conta os preços americanos), verificamos que a economia brasileira continua bem maior do que a mexicana. A própria revista registra que, por esse parâmetro, a estimativa do ''Economist Intelligence Unit'' dá ao Brasil um PIB de US$ 1,2 trilhão, contra US$ 890 bilhões do México, para o ano 2000.
A economia brasileira é muito mais sofisticada, sua indústria é altamente diversificada e tem um peso muito maior do que a mexicana, mas não devemos fechar os olhos para o fato que nossa taxa de crescimento caiu muito nos últimos sete ou oito anos.
A queda do desenvolvimento brasileiro é uma coisa dramática. Enquanto o PIB do México, puxado por uma forte ampliação das exportações, cresceu a taxas superiores a 5% em média entre 1995 e 2000, o PIB brasileiro não ultrapassou a média de 2,4% no período. A renda per capita dos brasileiros, com uma população crescendo a 1,6% ao ano, alcançou uma taxa ridícula de crescimento da ordem de 0,8% ou 0,9% no período.
Tenho insistido em chamar a atenção para o fato que, nessa marcha do desenvolvimento, nós vamos levar cem anos para dobrar a renda dos brasileiros. Se não corrigirmos a política, se não modificarmos a estrutura dos impostos e não aumentarmos as exportações, não será surpresa se em breve formos ultrapassados pelo México e não apenas por ele, mas por uma dezena de outros países que conosco competem no mercado mundial. Sem subestimar o choque que nos causa a perda da liderança no futebol, essa é uma tragédia bem maior.


- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal pelo PPB-SP
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