Está tramitando na Câmara de nosso País um projeto que visa acabar com o nepotismo no funcionalismo público. Embora não haja uma definição específica do que se considera como tal prática, todos os cidadãos têm consciência de que se trata de mais uma das artimanhas abusivas de certos políticos e mandatários.
Veja-se por exemplo a declaração do presidente da Câmara: ''Severino-vira-casaca-tiro-no-pé'', afirmou em cadeia nacional, que emprega e continua empregando seus parentes, sob a alegação de que os mesmos possuem curso superior e que, desta forma, estão aptos a ocuparem cargos públicos. Louvável o argumento, lamentável a prática. E, em mais um arroubo de perspicácia, prosseguiu dizendo que se tivesse mais ilhós, emprega-los-ia.
Que se deva exigir certa preparação dos nosso representantes, nada mais óbvio, muito embora este fator não deva representar um impedimento para que os menos favorecidos não tenham voz; pelo contrário, deve-se pensar em também prepará-los para que possam pleitear espaço nos nossos locais de representatividade. Mas tornar isso argumento para o emprego de parentes na administração pública já se torna abuso.
Sérgio Buarque de Holanda, em seu clássico Raízes do Brasil, demonstrava o quanto somos ligados a uma relação de proximidade com aqueles cujo tratamento deveria ser imparcial: não conquistamos um freguês para uma loja sem desenvolver com ele uma relação de simpatia. Não votamos pelas qualidades e pela preparação que os representantes possuem, mas pelas benesses que oferecem ou pela relação de parentesco ou amizade.
Este erro não é de nosso tempo, é estrutural. Já se assentou na cabeça das pessoas enquanto uma construção de que ''o privado é meu, o público não é de ninguém''. Desta forma, não podemos apelar para nossa tradição e afirmar que antigamente as coisas eram diferentes, eram melhores. Estavam apenas com outra roupagem, mas subjazia a estes também a concepção de que o que deveria um bem comum, e nisso reside o conceito da res pública, torna-se um algo de ninguém, que se pode usar e abusar, sem medo. Afinal, é do governo, não é meu mesmo. Com uma consciência assim, não podemos esperar que a situação um dia realmente mude, com reformas nas leis. A transformação deve ser maior, no nível de nossas consciências.
LUIZ CARLOS FERRAZ MANINI é professor de História em Londrina

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