Neo Aparthaid vol 1.2
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quarta-feira, 17 de junho de 2020
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O Aparthaid foi o mais longo e rigoroso sistema de segregação racial já visto na história, este, implantado na África do Sul no ano de 1948, consistia em separar negros, brancos e mestiços em diferentes classes da sociedade, onde os brancos possuíam privilégios como o direito ao voto, passaporte, melhores condições de vida, acesso facilitado à educação e saúde, e, os negros por sua vez eram impedidos de frequentar os mesmos ônibus que brancos, andar pelo mesmo lado da rua, residir nos mesmos bairros, comer nos mesmos restaurantes e estudar nas mesmas escolas. Desconstituído, por fim, em 1994, este modus operandi deixou marcas profundas no modo de vida africano que perduram até os dias atuais.
Destarte, o Brasil também viveu séculos de escravatura, tendo abolição plena em 1888, a mais tardia das abolições globais faz com que hodiernamente a segregação velada que há no pais possua um véu mais espesso do que aparenta. É desconfortável viver em um país de maioria negra (55,9% IBGE 2018) sabendo que dos advogados somam 1% nos grandes escritórios e que médicos são 17,9% da totalidade; é desconfortável frequentar shoppings centers e 95% dos presentes serem brancos; é embaraçoso comer em restaurantes de alto padrão e ser minoria entre os consumidores e notar que a maioria dos trabalhadores do local são negros; é desgastante ingressar no ensino superior e contar nos dedos os negros que te esbarram pelo campus; é revoltante não ver muitas figuras negras na política e nos comercias de TV; é intrigante não perceber essa maioria quantitativa em posições de destaque da sociedade, por este espectro o preconceito brasileiro se assemelha ao trauma corporal mal tratado, por fora não há cicatrizes, mas interiormente ainda causa dor e desconforto.
O fato é que o Brasil ainda segrega, silenciosamente, sorrateiramente faz com que o negro não se sinta pertencente a certos lugares, às vezes de alto padrão, majoritariamente e historicamente frequentados por brancos, cria-se o estigma de que o negro com dinheiro não aproveita a vida e sim ostenta, gera nas pessoas a estranheza, pois o senso comum delas está atrelado em não ver preto por tais lugares.
O sociólogo brasileiro Florestan Fernandes, que estudou todo o período escravagista brasileiro de seu inicio até o fim com a Lei Áurea, diz em seu livro “A integração do negro na sociedade de classes” que ao abolir a escravidão no Brasil, o negro obteve apenas o status de livre, e que sua real transformação social, ou seja, realmente se tornar um homem livre perante a sociedade, era algo que levaria mais de meio século, pois o mesmo continuava marginalizado, predestinado a serviços subalternos e a submissão aos brancos, desta forma, a possibilidade de ascensão social de um negro era remota em comparação a de um branco.
Dizer que vivemos uma segregação intrínseca no Brasil é algo forte, porém não é equívoco. Este texto não visa soluções imediatas para uma questão de 5 séculos, mas sim o desnude de olhos, o estouro de bolhas, a queda de escamas visuais que fazem o indivíduo pensar sempre por rebanho e nunca por si só.
Eduardo Vieira, aluno do segundo ano de Direito na Universidade Positivo Londrina.


