Nenhuma bala é perdida
Segunda-feira, véspera de aniversário. No exato momento em que bandidos tentam assaltar um carro de transporte de valores no centro de Londrina, e na troca de tiros balas perdidas procuram alvos inocentes, o aposentado Manoel Carlos, que hoje completaria 83 anos de idade, está na linha de uma delas.
Nada de triste coincidência nesta trágica história. Manoel Carlos, como cidadão, caminhava por aquele local, assim como tantas outras pessoas que ali passavam naquele momento, com uma delas também atingida.
Ser alvejado pelo disparo de uma arma de fogo não é coincidência. É ser vítima da violência, que infelizmente adquire a cada dia uma proporção assustadora e mais preocupante ainda. Ser velado e sepultado no dia em que comemoraria mais um ano de vida também nada tem a ver com coincidência. É, no mínimo, consequência de um estado de violência que poderia vitimar fatalmente não Manoel Carlos, mas qualquer outra pessoa que estivesse passando naquele local e no exato momento dos disparos.
Senão seria coincidência bandidos, frutos de desacertos sociais, encontrarem naquele local e no exato momento um carro de transporte de valores; seria coincidência aqueles homens serem vítimas de desacertos sociais e se tornarem bandidos; a impunidade, que contribui para a violência, também seria mera coincidência; e, andar por qualquer rua e ser atingido por um carro, no conturbado trânsito, teria a vítima como suspeito de ser fruto de uma coincidência.
Walter Ogama





