Dia desses ouvia pela CBN, numa entrevista, um deputado de oposição exclamar: Desse jeito, vão querer privatizar o próprio governo!
Como não peguei a parte que vinha antes, não sei exatamente a propósito de que veio o desabafo do ilustre parlamentar, mas não pude reprimir o sentimento de que se trata de uma excelente idéia, que devia ser posta em prática, sem demora, por todos os países do mundo - em especial os que são espoliados por seus governos, como é o caso do Brasil (vide os 2 artigos anteriores: Crônica Policial e Roubo ou Estelionato?)
De fato, nesses dias de competências privadas premiadas por ISOs 9000 e 14000, e de administração cada vez mais técnica, governos estão-se tornando uma instituição cada vez mais fora de moda.
A meu ver, não se trata de discutir se deve existir um governo mínimo ou um governo máximo. Acho que já se pode estabelecer uma razoável argumentação em favor de governo nenhum.
Partindo-se do princípio - já geralmente aceito - de que o governo é mau administrador e de que deve efetivamente abrir mão de uma série de tarefas, em especial na área micro-econômica, quais os argumentos que ainda restam para a sobrevivência dessa anacrônica instituição? Em geral, são dois: 1) o de que certas tarefas essenciais como educação, saúde e segurança são anti-econômicas e/ou estratégicas e devem ser desempenhadas pelo Estado e 2) de que a existência de um governo constitucionalmente eleito é a forma mais perfeita e democrática de organização social.
Bullshit - em ambos os casos. Saúde, educação e segurança podem ter sido atividades deficitárias no passado. Hoje, todas elas são altamente rentáveis, lucrativas e muitos grupos privados se interessariam por exercê-las, além dos que já as exercem. A educação superior, no Brasil, por exemplo, está 2/3 nas mãos dos empresários privados - que formam um jovem para o mercado de trabalho a um custo entre 4 e 5 vezes mais baixo do que as universidades públicas e ainda conseguem ganhar dinheiro. Assistência de saúde e previdência são bons negócios em qualquer parte do mundo. E quanto à segurança, o noticiário cotidiano demonstra que é, no Brasil, um escândalo e um horror e as várias polícias distinguem-se cada vez menos dos bandidos a quem pretendem se opor, e que os sistemas judiciário, carcerário, etc., estão simplesmente apodrecendo.
Quanto à representatividade democrática, ou à simples legitimidade dos governos periodicamente eleitos entre candidatos propostos por partidos políticos, recentemente ‘‘The Economist’’ detonou essas noções como mitos, antiquíssimos como as teorias contratualistas de Hobbes e Rousseau em que (ainda) se baseiam e mais apropriados para uma sociedade pré-histórica do que a da era da informática em que vivemos. Eleger governantes por 4, 5 ou mais anos, sem a possibilidade de despedí-los sumariamente por incompetência é uma proposta suicida.
O espaço vai acabando e, decididamente, não dá para esticar o assunto por mais uma semana. Devemos parar por aqui. Só pense e reflita no seguinte: se já existem os instrumentos tecnológicos para avaliar adequadamente a vontade e os desejos da maioria (e das minorias representativas) e transformá-las em processos de escolha de representantes-administradores; se os governos atuais são perdulários, desonestos e até criminosos, em toda a linha, e se a iniciativa privada pode desempenhar todas as funções econômico-administrativas com mais eficiência e a custos mais baixos, por que não o fazer?
O que impede - além de tradições piegas e privilégios espúrios - que as sociedades modernas, que um dia inventaram os governos, agora desinventem-nos, para criar novos sistemas mais eficientes e mais democráticos de organização social para o terceiro milênio?José Roberto Whitaker Penteado
‘‘Quem tem a tecnologia para mover montanhas não precisa de f钒 (Eric Hoffer)

mockup