Nem para síndico
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sexta-feira, 19 de outubro de 2001
Maria Lucia Victor Barbosa 
Um amigo comentou que não elegeria Lula nem para síndico do seu prédio, porque o eterno candidato à Presidência da República não tem sequer noção de contas a receber e a pagar. Acrescentou que ''custa a crer que a intelectualidade brasileira, particularmente os acadêmicos, não perceba, a menos que a maioria seja dependente de seus empregos em universidades federais, que o PT é um partido defasado do momento histórico''.
Depois encerrou a conversa, dizendo: ''Embora o PT tenha tido seu momento de lucidez no seu nascedouro, ao defender a democracia, hoje é um partido dezenas de anos atrás de nossa época. Defende os privilégios mais perversos que são traduzidos pelas estatais, pelos sindicatos e por segmentos do funcionalismo público. Não tem uma proposta. E agora se percebe que setores do empresariado brasileiro, que pretendem viver do dinheiro do povo através dos subsídios do BNDS, aliam-se ao PT que também quer o dinheiro do povo através dos privilégios dados às estatais, funcionalismo etc.''
Sob a magia do marketing, Duda Mendonça reforça a idéia de que o PT é composto por cidadãos acima de qualquer suspeita, por detentores dos mais nobres sentimentos, por fabulosos defensores dos pobres e oprimidos. Enfim, o PT é do Bem. O resto é do Mal. Além disso, Mendonça criou a imagem de um Lula ameno, a qual deve se coadunar com a envergadura do estadista.
Neste sentido, Lula vai à França para demonstrar todo seu preparo. Ele consegue um encontro com o primeiro-ministro Lionel Jospin, mas como seu verdadeiro know-how consiste em fazer oposição, apressa-se em se opor, diante do francês, à política do presidente Fernando Henrique Cardoso, sempre acusado de vender os interesses brasileiros aos estrangeiros.
Para mostrar seu conhecimento, o dirigente petista defende ardorosamente a política agrícola européia e, naquele momento culminante de subserviência, protagoniza seu ato contra os interesses comerciais do seu País. Afinal, o Brasil tem sido prejudicado pelos subsídios e barreiras protecionistas estabelecidos pelos países ricos, entre eles, a França.
Mas Lula também tem um projeto: ''Fome zero''. Entusiasmado com as propostas dos seus economistas, ele diz: ''Primeiro vamos combater a fome, depois vamos exportar''. Segundo editorial de ''O Estado de S. Paulo'' de quinta-feira passada, a próxima contribuição de Lula para a solução dos problemas brasileiros ''pode ser uma advertência para que as pessoas não misturem leite com manga''.
Na verdade, Lula e seus economistas ignoram que a agricultura brasileira é bastante competente para abastecer o mercado interno e exportar. E mesmo a afirmação do projeto, de que ''uma das dimensões fundamentais da fome'' reside na ''incompatibilidade dos preços atuais dos alimentos com o baixo poder aquisitivo da população'', esbarra na realidade.
Primeiro, porque o Plano Real, ao estabilizar a economia aumentou o poder aquisitivo da população, especialmente dos mais pobres e, consequentemente, possibilitou-lhes maior capacidade de consumo, inclusive o alimentar. Segundo, porque aliada às consequências do Plano Real, a modernização da agricultura através da tecnologia gerou ganhos de produtividade que acabaram sendo transferidos para o consumidor. Com isso os alimentos brasileiros baratearam. Pesquisem os petistas os índices de preços ao consumidor para certificarem-se do que acontece.
De todo modo, a solução para a questão da pobreza passa fundamentalmente pela geração de empregos. Mas o documento do PT, se reconhece isso, não chega a indicar de forma nítida políticas de emprego adequadas. Preferem os petistas versar sobre programas assistencias, ou seja, sobre as panacéias das caridades oficiais que nunca tiraram ninguém da pobreza, e cuja fonte dos cerca de R$ 20 bilhões necessários para sua execução está bastante nebulosa. Desse jeito, penso também, Lula nem para síndico.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga, escritora, professora universitária em Londrina
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