Nem Freud explica
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sábado, 24 de janeiro de 2004
René Ruschel 
Uma das primeiras lições da psicanálise é que, quando se quer descobrir algo, o ideal é prestar atenção nos detalhes, nas pequenas coisas, aquelas que ninguém ou poucos percebem. Assim, diz a ciência, se revelam os grandes segredos. Se a turma dos ex-petistas radicais - a senadora Heloísa Helena, deputados Babá, Luciana Genro & Cia - seguirem à risca os ensinamentos científicos poderão encontrar um farto material técnico para continuar descendo o sarrafo no governo do presidente Lula.
Logo após a última reunião do Comitê de Política Monetária - Copom, que contrariando a todas as expectativas do mercado preferiu não reduzir a taxa básica de juros, Selic, o diretor do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial - IEDI, cujo pensamento econômico está muito mais afinado com os preceitos do Fórum de Davos, na Suíça, do que o Fórum Social em Mumbai, na Índia, Julio de Almeida, afirmou que ''a decisão mostra o conservadorismo do Banco Central''. Por extensão, BC é o mesmo que governo.
Sem entrar no mérito das filigranas teóricas da medida o desabafo do executivo é um detalhe que ilustra o quanto o governo do presidente Lula tem surpreendido por suas atitudes, quer seja no aspecto econômico ou político.
Em relação à reforma ministerial, as mudanças são muito mais - ou exclusivamente - para acomodar interesses tanto do Executivo como do Parlamento. A rigor, esta prática é universal e faz parte do processo democrático. Mal ou bem não há forma de governo mais salutar que o da maioria.
Acontece que no Brasil os partidos têm muito pouco a oferecer em termos de propostas ou projetos viáveis. Como acontece em períodos pré-eleitorais, e o ano de 2004 é um destes, os candidatos passam a repetir um sem-número de intenções populistas, demagógicas e quase sempre descabidas. A solução para superar a ausência de massa encefálica é buscar guarida sob o guarda-chuva oficial, onde as benesses são moedas de troca de altíssimo valor.
O governo, por sua vez, aproveita e faz do escambo um instrumento de trabalho: negocia cargos por votos no Congresso Nacional. Aliás, este preceito franciscano do ''é dando que se recebe'' não é novidade.
Na prática o que sucede é que o presidente Lula, como é praxe nos regimes presidencialistas, tem em mãos um cheque em branco para atuar como bem entender. Não há um compromisso programático que o obrigue a agir sob determinados princípios ideológicos, políticos ou mesmo doutrinários. Até mesmo por uma questão de cultura, uma vez que o eleitor brasileiro vota no cidadão e não no partido.
A rebeldia de alguns petistas é justamente pelo fato de, uma vez no poder, o PT ter renegado quase tudo o que apregoou em 20 anos de oposição. Que tal fato é uma verdade, ninguém contesta, porém é preciso reconhecer que muito do que foi dito e ainda compõe o programa do partido, principalmente em se tratando de política econômica, é no mínimo vetusto, arcaico e ultrapassado. Por enquanto, só resta ficar atento e observar os detalhes como as peças estão sendo mexidas no tabuleiro político.
RENÉ RUSCHEL é jornalista em Curitiba


