Nedson condena ''rolo compressor''
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domingo, 01 de julho de 2001
Lúcio Horta De Londrina 
Quando foi eleito prefeito de Londrina, em outubro de 2000, o azarão Nedson Micheleti (PT) recebeu um recado claro das urnas: o eleitor londrinense estava cansado das incontáveis denúncias de corrupção quase todas envolvendo o ex-prefeito Antonio Belinati (sem partido) e exigia mudanças.
Seis meses depois de assumir o cargo, o prefeito mantém o discurso da ética e da transparência. E trouxe para Londrina marcas fortes da administração petista, como os programas Bolsa-Escola, o Médico da Família e o Orçamento Participativo.
Mas a guinada radical de estilo saindo do populismo belinatista para um governo de esquerda não trouxe calmaria para o prédio da Prefeitura. Pelo contrário. Nedson tem se debatido a cada dia com novas e velhas polêmicas. A maior delas é a defesa da privatização da Sercomtel Celular algo que no mínimo soa estranho para uma administração petista.
Estou apenas assumindo uma herança de um programa de privatização das telecomunicações do governo federal, que eu inclusive votei contra quando era deputado, responde rápido o prefeito.
Mas a maior dor de cabeça de Nedson vem do prédio em frente à Prefeitura. Na Câmara, alguns vereadores adotaram nitidamente uma postura de oposição sistemática. Apesar da pressão, Nedson garante que vai manter a postura independente em relação ao poder Legislativo, sem formação de blocos ou acertos escusos.
A seguir, os melhores trechos da entrevista concedida à Folha, na última quinta-feira.
Folha Após seis meses, o governo de Neson já tem uma marca?
Nedson Acho que as três marcas que queríamos dar nós estamos dando: uma administração séria, ética, com rigor ético; uma administração participativa, aberta, transparente, sem esconder nada de ninguém; e uma administração preocupada com o social. Daí os dois programas que resolvemos adotar inicialmente, que é o Bolsa-Escola e o Saúde da Família.
Folha Além desses dois programas, quais outros pontos da cartilha petista que estão sendo implantados em Londrina?
Nedson O Orçamento Participativo e o fortalecimento dos conselhos populares. Nós já fizemos a conferência do meio ambiente, já fizemos a conferência da criança e do adolescente, já está marcada a conferência da saúde, e outras deverão ser marcadas. Também fortalecemos os conselhos já existentes, como o Conselho da Mulher, o do Desenvolvimento, do Trabalho. É uma forma de participação popular nos caminhos do governo, tanto fiscalizando como apontando políticas.
Folha O senhor tem tido contato com outros prefeitos do PT no Estado, tem trocado experiências?
Nedson Tenho, principalmente com os de Maringá, Ponta Grossa, Medianeira e Sarandi. Claro que acabamos tendo uma relação maior com Maringá e Ponta Grossa, pelos problemas de porte da cidade serem semelhantes. Mas não só com os prefeitos do Paraná. Tenho contatado também nacionalmente.
Folha O fato de nacionalmente o PT ser contra privatizações, inclusive estando na linha de frente da defesa da Copel pública, não causa desconforto na administração local quando esta defende a venda da Sercomtel Celular?
Nedson Olha, a Sercomtel Celular está nessa situação hoje porque o sistema nacional de telecomunicações foi privatizado. Não é a privatização da Sercomtel Celular que está sendo feita pelo prefeito do PT de Londrina, é o governo federal, do Fernando Henrique Cardoso, do PSDB, que fez uma política de privatização no Brasil inteiro, para grandes grupos multinacionais e que deixou a Sercomtel isolada numa única cidade, com área de atuação restrita. É essa a situação e não me sinto desconfortável. Estou apenas assumindo uma herança de um programa de privatização das telecomunicações do governo federal, que eu inclusive votei contra quando era deputado.
Folha O presidente da Fedração Interestadual dos Trabalhadores em Empresas de Telecomunicações, José Zunga Alves de Lima, ex-presidente da CUT, criticou abertamente a venda da Sercomtel. O senhor acha que poderão ocorrer novas críticas de setores da esquerda por defender essa privatização?
Nedson Não, até porque nós já discutimos isso. Discuti no diretório estadual do PT. Discutimos e aprovamos. Aqui também, no diretório local. E o assunto já foi levado ao diretório nacional do partido. Na discussão com a sociedade, lógico que não fiz esse tipo de discurso, não politizei essa questão, para ficar fazendo guerra com o governo federal. Trabalhei objetivamente a situação da empresa. Mas quando o eixo do debate é político eu respondo politicamente. E a gente vê em Londrina, sendo contra a venda da Sercomtel Celular, quem privatizou a telefonia no Brasil inteiro. Não há comparação, por exemplo, com a Copel ou com isso e aquilo.
Folha Se a venda for aprovada no plebiscito, o próximo passo será informar a população sobre a necessidade da venda. Como isso será feito?
Nedson O importante é saber que a administração municipal e a Sercomtel não podem fazer isso, são impedidos por lei. Temos que aguardar o resultado. Quem pode fazer campanha pelo sim e pelo não é a sociedade. Mas eu poderei fazer ações como cidadão, indo a reuniões, conversar.
Folha E qual será a garantia que o senhor vai dar ao cidadão de que os recursos obtidos com a venda, caso seja aprovada, não tenham o mesmo destino dos R$ 145 milhões da negociação Copel-Sercomtel, em maio de 98?
Nedson A primeira garantia que eu dou é a minha própria vida, a forma como eu sempre fiz política e tratei o patrimônio público. Mas como as pessoas não precisam necessariamente acreditar, precisam ter a segurança de que os recursos vão ser tratados com rigor e seriedade, eu estou propondo que os recursos sejam vinculados a obras pré-estabelecidas antes da venda. Esse dinheiro só vai sair de uma conta vinculada para pagar essas obras, para mais nada.
Folha Como vai ocorrer a definição dessas obras?
Nedson Vamos fazer a coleta dessas informações no Orçamento Participativo. E tem também as propostas de governo, que eu vou debater com o Conselho do Orçamento Participativo.
Folha Agora, e se a venda não for aprovada? Ou então a TIM não oferecer o preço mínimo que estará definido no edital? Todo esse processo de discussão não pode provocar um desgaste excessivo à imagem da empresa?
Nedson Se o plebiscito disser sim, e for feito no tempo hábil, não tenho essa preocupação de que não haja a compra. Porque o volume de investimentos para chegar ao número de clientes que a Sercomtel tem hoje, vai ser compatível com que a TIM vai pagar para ter esses clientes. Mas se não vendermos, aí vamos tocar a empresa como estamos tocando. Isso vai gerar um risco muito grande para a celular e para a fixa.
Folha A não venda não atrapalharia um eventual projeto político do PT para 2002, já que as obras feitas com os recursos da Cecular dariam visibilidade para a administração?
Nedson Olha, o projeto da Celular está colocado de acordo com a realidade objetiva que ela enfrenta. Não está sendo feita nem porque a prefeiturta está com rombo nem porque com isso vamos ter projeção. Agora, automaticamente, lógico, a prefeitura poderá ter projeção política. Isso é natural. Mas não é esse o motivador.
Folha A Câmara Municipal já sinalizou que pode complicar a administração. Tivemos vários exemplos, como a questão do lixo, a reforma administrativa, que foi desfigurada no Legislativo, a instalação da CEI da Acesf, o projeto que prevê alteração no quórum mínimo das votações. O senhor entende que existe uma oposição sistemática no Legislativo, pelo menos por parte de alguns vereadores?
Nedson Por parte de alguns vereadores, sim. É natural. Mas a posição que eu adotei é que trabalharia a questão da independência dos poderes. Optei em não constituir bloco. Tenho sim contato pessoal com todos os vereadores, converso, discuto questões de governo, da cidade, com todos. Não tenho feito trato diferenciado. Busquei e estou buscando isso.
Folha Mas qual é a resposta que o senhor está tendo?
Nedson A resposta é a tentativa de formar um bloco de oposição controlando a Câmara, um rolo compressor de oposição. Sinto até que muita gente na cidade, pessoas que têm um posicionamento com a democracia, com a relação de poderes, que ao mesmo tempo que na teoria defende isso, na prática acha que o prefeito tinha que dar um jeito na Câmara. Ora, se a gente for olhar no passado, eu não sei o que dá mais prejuízo para a cidade. Talvez eu esteja errado, mas estou convicto de que o fato de prefeitos terem rolos compressores na Câmara, que votam seus projetos, sabe lá a que custo para cidade, que isso sempre causou prejuízo. O ideal é que cada projeto seja debatido e seja votado conforme a consciência de cada vereador.
Folha No caso da CEI da Acesf, apesar da gravidade das acusações, o que se passou foi uma demonstração de força do Legislativo?
Nedson Não tem fato nenhum para isso (a CEI), pelo menos fato relevante. Se for apenas um fato político, aí é grave: a Câmara utilizar mecanismos sérios de fiscalização para fazer uma ação política.
Folha Revanchismo?
Nedson Revanchismo com a secretária (Cláudia Prochet) por causa do artigo da Folha (criticando vereadores que votaram contra a revogação do plebiscito da Celular), um artigo pessoal, uma opinião pessoal. Se for por isso, não tem cabimento. Se os vereadores tivessem dúvidas sobre a administração dentro da Acesf, poderia previamente fazer uma verificação e, constatando alguma irregularidade, abrir uma CEI. Mas como foi feito de afogadilho, a impressão que dá é de reação política.
Folha O senhor se sente pressionado com essas propostas?
Nedson Eu tenho procurado agir cumprindo o meu papel. Elaboro projetos, encaminho. O que considerar inconstitucional, encaminho para a Justiça, como foi a questão do lixo. O que eu acho que não é compatível, eu veto, e a Câmara tem poder de derrubar o veto. Isso numa relação democrática de poderes, de quem não é dono da cidade. Nem o prefeito nem a Câmara.
Folha O senhor pretende manter essa conduta, mesmo que essa oposição sistemática fique configurada?
Nedson Pretendo. Eu tenho pedido ajuda para a Câmara, tenho mandado os projetos, tenho justificado e fundamentado todos os projetos, dou transparência absoluta em todos os meus atos. Não tem nada que a Câmara não tenha sido chamada e informada, nada. Esse é o método de governo que eu adotei e pretendo seguir.
Folha Como tem sido relação com deputados da região?
Nedson Eu também defini uma relação institucional. Tanto com o governo federal, como com o estadual e os agentes políticos (secretários estaduais e deputados). Tanto que antes na posse visitei governador, visitei todos os deputados federais e estaduais da nossa região, independente da coloração partidária.
Folha Quantas vezes o senhor se encontrou com o governador Jaime Lerner após a posse?
Nedson Umas cinco ou seis vezes. Várias vezes. O mais recente foi em um evento da Fiep (em São Paulo). Ele estava lá, com o José Richa.
Folha O senhor tem levado reivindicações?
Nedson Formalmente, fui apresentar reivindicações duas vezes.
Folha E foi atendido?
Nedson Olha, teve a questão da segurança, e o José Tavares (secretário da Segurança) veio a Londrina e tentou fazer alguma coisa. Teve a questão de obras, e algumas coisas começaram a andar.
Folha O senhor tem sentido algum tipo de embaraço nessa relação?
Nedson Não está acontecendo nada do tipo privilegiar Londrina, mas também não está havendo uma discriminação. O que eu sinto é que o relacionamento está dentro das condições que o Estado está.
Folha Um dos maiores desafetos do governo hoje, declarado, é o Padre Manoel Joaquim, que, além de ser do Movimento Pela Moralização na Administração Pública, é filiado ao PPS, partido que fez parte da coligação. Qual o motivo dessa crise?
Nedson De minha parte não tem crise. Em nenhum momento rebati críticas ou ataques que eu recebi dele. Não respondi e não vou responder. Tenho maior respeito e carinho por ele e fiz gestões para tê-lo como consultor, pessoa que me assessorasse. Não necessariamente dizer o que eu tenho que fazer, mas ajudasse.
Folha Com ou sem cargo?
Nedson Sem cargo. Como pessoa, como amigo. Isso eu quis na época e continuo desejando. Tenho maior respeito por ele e jamais vou dar qualquer tipo de resposta a algum posicionamento dele.
Folha Como avalia a possibilidade do senador Osmar Dias (ex-PSDB) ingressar nas fileiras do PT?
Nedson Acho que a direção nacional do PT fez bem em conversar. Tanto o Osmar quanto o Alvaro Dias deram um passo importante ao assinar aquela CPI (da corrupção). Foi um gesto corajoso e isso tem que ser reconhecido. Por isso acho que a direção fez bem em dialogar, abrir portas, mesmo sabendo, como eu sei, que a base política do Osmar não é a do PT. Ele vai buscar caminhos onde sua base política se sinta a vontade.
Nedson E as chances do PT em 2002 no Paraná?
Nedson Nós estamos trabalhando primeiro um projeto nacional. Essa é a nossa estratégia. Estamos articulando um projeto de governo, com a candidatura do Lula (Luiz Inácio Lula da Silva) para presidente. Queremos somar forças da sociedade para estar junto desse projeto. E no Paraná é a mesma coisa. Aliás, nós chegamos a municípios dessa forma. E as pessoas vão estar vendo isso e comparando com a nossa capacidade de administrar.


