Fenômeno interessante esse que acontece no cenário jornalístico nacional: a predileção pela notícia de morte humana. Não a divulgação das famosas ‘‘notas de falecimento’’, obituário normalmente lançado em páginas secundárias, letras miúdas, quase uma informação clandestina (exceto quando se trata de chamamento para alguma cerimônia fúnebre, e aí a matéria é paga por familiares interessados). Estou me referindo à exploração sensacionalista - para dizer o mínimo - da morte violenta.
Certamente, isso se deve à natureza do fato. Lidar com morte é lidar com o instinto básico da vida, da sobrevivência, tal qual o sexo, que trata de perpetuação da espécie. E tudo o que se refere a instinto básico chama muito a atenção. Os nossos sensores ficam ligadíssimos, consciente e subconsciente, visão direta e periférica. Os publicitários que o digam. Daí essa coisa de a imprensa - não toda ela, mas uma parte razoavelmente significativa - explorar a morte escancaradamente, descaradamente, com o óbvio intuito de despertar interesse, pois quem se interessa, compra - são as leis do mercado selvagem. Igualzinho às emissoras de tevê quando querem aumentar a audiência da telenovela. Inventam lá uma cena de nudez, de sexo, de sensualidade, nem que sejam absolutamente gratuitas, desnecessárias para o produto (ia dizer ‘‘obra’’, mas estamos falando de indústria cultural, não de arte). Estão aí os programas de variedades, na mesma disputa pela valorização dos espaços de comercial. A produção resolve colocar no ar, sem sutilezas, uma monstruosidade qualquer, indignificando o telespectador que não consegue atinar nada, porque está hipnotizado.
A título de exemplo, uma contribuição para a pesquisa, a reflexão e o debate acadêmicos, a serem feitos nas escolas de comunicação social do nosso Estado: notem-se as primeiras páginas do jornal ‘‘Tribuna do Paranᒒ, nas cinco feiras da semana passada. Segunda-feira, dia 19, a primeira página desse jornal paranaense trouxe a seguinte manchete: ‘‘Invadem mercado e fuzilam o dono!’. No alto, à direita. uma foto 10,5cm X 8,5cm, com um close up do cadáver, R.J., 37 anos (o jornal disse o nome inteiro); boca aberta, olhos fechado, um ferimento na testa. Terça-feira, dia 20, a manchete: ‘‘Bandido fere garota e morre com 7 tiros!’; no alto, à direita, uma foto de L.R., 10,5cm X 8cm, boca aberta, deitado na caixa metálica do Instituto Médico Legal, com o dorso nu mostrando as perfurações. Nesse mesmo dia, embaixo, à direita, a foto 10,5cm X 7,5cm de três vítimas de uma colisão de veículos. Todas com o rosto ensanguentado. Quarta-feira, dia 21, ‘‘Assalto e morte no mercado!’. Novamente, no alto, à direita, a foto 16cm X 12cm de R.A.A., de 23 anos, estirado no chão com a cabeça ferida e o sangue escorrendo pela boca. Quinta-feira, dia 22, o referido jornal pegou leve: embaixo, à direita, a foto 10cm X 8cm de um cadáver que foi encontrado em Araucária, boiando nas águas do Rio Barigui. Finalmente, sexta-feira, dia 23, ‘‘Rapazes executados a tiros!’, e, ao lado, no alto, à direita, a foto 16cm X 12cm dos dois rapazes, J.A.O. e H.V.J, estendidos no chão, os corpos desengonçados e o sangue jorrando.
A não ser no caso do cadáver encontrado boiando no rio, não identificado, em todos os outros apareciam o rosto e o nome dos mortos. Em condições trágicas, obviamente. Os corpos revirados, fisionomia contorcida. Isso é jeito de dar notícia? Faz alguma diferença, para o leitor, saber que fulano ou beltrano morreram assassinados ou de acidente de carro, com ou sem essas fotos terríveis? Do ponto-de-vista jornalístico, não. Do ponto-de-vista mercadológico, sim, pelos motivos acima mencionados.
Agora, e os familiares desses mortos? Terão achado agradável ver o retrato do pai, do filho, do irmão, naquele estado? A primeira pergunta a ser feita no debate acadêmico sugerido é: os responsáveis pelas vítimas autorizaram o uso da imagem da cadáver? Outra pergunta: esse estilo do fotojornalismo não constrange o sentimento de respeito que a cultura brasileira nutre por seus mortos? Se constrange, deve-se perguntar a que ponto chega esse constrangimento. Porque a lei penal protege o respeito aos mortos. Logo, conforme o tamanho do constrangimento, poderemos estar diante de um dilema jurídico entre se o que deve prevalecer é a liberdade de expressão ou a proteção ao sentimento de respeito pelos mortos. Se o jornal publica a foto com intenção de informar, porém, na prática, acaba constrangendo, como é que fica?
Então, é ou não é uma bela discussão acadêmica?

mockup