Um instrumento poderoso, de incontáveis utilidades, de repente é visto como lâmina na mão de criança. Parece ser esta, objetivamente, a linguagem de figuração mais apropriada para definir a circunstância do envolvimento de estudantes de Medicina da Universidade Estadual de Londrina com a internet. O grupo usava a rede de computadores para fazer comentários desairosos sobre funcionários, médicos e professores do Hospital Universitário (HU). Nem pacientes saíram incólumes, pois vez ou outra também eram alvo das agressões, chacotas e referências depreciativas. Embora o baixo padrão de civilidade seja exibido com frequência na internet, o caso dos residentes do HU causa repercussão. E exige, no mínimo, posição de indignação da sociedade. Peraltices que expressam um certo grau de imaturidade e sugerem falta de seriedade? Mas este, digamos, destempero de comportamento pode, facilmente, ser remetido para um campo perigoso, o profissional. Assim para deixar muito barato caberia refletir: alguém confiaria os cudados de sua saúde a indivíduos cuja regra de comportamento inclua esse tipo de brincadeira?. Cuidado para não generalizar ou comprometer a instituição. A notícia, aliás, é clara: a internet foi usada por um grupo de ex-estudantes e estudantes que fazem residência no Hospital Universitário de Londrina para divulgar mensagens racistas, discriminatórias e preconceituosas. Em duas comunidades de internautas, criadas em outubro do ano passado no Orkut: ''Eu odeio os trolls'' (funcionários) e ''Não aguento mais o HURN'' (sigla do hospital). Um dos integrantes destas ''comunidades'' usou a expressão ''macaca'' para se referir a uma funcionária. Considerar isto uma molecagem é minimizar ao extremo uma contravenção passível de penas previstas nos códigos Civil e/ou Penal. Exatamente isto a legislação convencional pois, afinal de contas, não há legislação específica para os navegadores ou internautas de águas turvas da rede mundial de computadores. Talvez por esta razão é que a rede seja inundada e emporcalhada pelos chamados ''spam''. Preocupa o fato de a internet existir comercialmente há cerca de uma década sem que a sociedade tenha organizado convenções para fixar regras no campo da ética e da cidadania. A internet é poderosa demais para situar-se acima do alcance de normas e ética, há que haver limites. Mas não pode ser tecnologicamente tão avançada ao ponto de não permitir filtros que excluam lixos como os grupos que divulgam mensagens racistas. Não adianta o clima de indignação no HU (conforme divulgado ontem por este jornal). É preciso ''recuperar'' as pessoas e criar ambiente de nível capaz de repelir naturalmente a preseça de grupos inclinados à perversidade. O padrão de civilidade, a formação das pessoas e o ambiente em que estão inseridas é que vão evitar baixarias. Pelo menos enquanto não existir formas legais e tecnológicas para enquadrá-las.

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