NATUREZA PRESERVADA - Meio ambiente exige capacitação
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 24 de maio de 2010
Paula Costa Bonini<br>Reportagem Local 
''Qualquer atividade humana é poluente. A questão que a gente foca é: até que ponto é possível poluir sem provocar um grande dano ambiental?'' O questionamento é do engenheiro civil Fernando Fernandes, doutor em controle da poluição. Para ele, essa preocupação deve ser de todos, inclusive dos empresários.
Por isso, o engenheiro defende que toda empresa conte com profissionais capacitados em meio ambiente. E um caminho para a capacitação é o Programa de Mestrado em Engenharia de Edificações e Saneamento, oferecido pelo Departamento de Construção Civil da Universidade Estadual de Londrina (UEL), coordenado por Fernandes.
Nesta entrevista, ele discute a forma como as universidade abordam as questões ambientais e sugere medidas mais eficientes para garantir a presevação. ''A humanidade caminha para uma situação de risco muito grande. Precisamos formar profissionais que tenham uma visão mais comprometida'', alerta.
Qual a importância de preparar os profissionais para uma nova postura em relação à questão ambiental?
Na área do meio ambiente existe uma frase bem famosa que é ''você deve pensar globalmente e agir localmente.'' Ao discutir um problema ambiental, constata-se que grandes transformações aconteceram em um espaço de tempo muito curto. Nos últimos 200 anos, a quantidade de CO2 (gás carbônico) na atmosfera aumentou 30%. Este aumento acontece em uma escala de tempo extremamente curta do ponto de vista geológico. Isso traz como consequência o efeito estufa, que hoje é um risco presente.
Em termos práticos, existem algumas iniciativas, mas não são suficientes. Por isso, buscamos formar profissionais que tenham uma visão mais comprometida com os desafios futuros que a curto prazo vão mudar radicalmente a sociedade. Há a percepção de que a humanidade caminha para uma situação de risco muito grande, mas as medidas tomadas são pouco eficientes.
E quais medidas seriam eficientes?
Por exemplo: estabilização das emissões de CO2 e do crescimento populacional, erradicação da miséria e recuperação dos grandes ecossistemas. Para diminuir as emissões de CO2, por exemplo, já perdemos boas oportunidades. Quando começou a crise, o governo retirou os impostos dos automóveis. Perdemos uma chance, que os americanos não perderam, de começar a direcionar a sociedade para um rumo mais sustentável. Poderiam retirar o imposto somente de carros que, de alguma forma, colaboram com o meio ambiente. E fazer o mesmo com os impostos dos eletrodomésticos, que também foram reduzidos.
Para estabilizar o efeito estufa, teríamos que desenvolver novas fontes de energia, trabalhar com produtos mais eficientes e fazer um uso mais racional da energia. No momento de investir dinheiro público para incentivar a economia, deve-se aproveitar para incentivar produtos mais eficientes do ponto de vista energético.
E qual é o papel da sociedade? De que forma podemos contribuir com a preservação do meio ambiente?
Todo mundo sabe que se jogar um lixo na rua vai agredir o meio ambiente. Mas não entende que o lixo jogado na Avenida Higienópolis, em um dia de chuva, vai parar no Lago Igapó. Por isso, eu acho necessário veicular informações verdadeiras. Hoje temos um acesso a uma grande quantidade de informações. Isso é ótimo, mas muitas informações são manipuladas e têm segundas intenções. Por exemplo, um pesquisador me disse que algumas beringelas têm pequenas verrugas, que não interferem na qualidade do produto. Mas o consumidor não compra. E para evitar essas deformações é preciso utilizar um agrotóxico terrível. Por isso, as pessoas só farão as melhores escolhas quando tiverem acesso a informações verdadeiras.
Como as universidades tratam dos temas relacionados ao meio ambiente?
Quando me formei no final dos anos 70 praticamente não se falava em meio ambiente no curso de engenharia civil. Algumas questões eram tratadas, mas a partir de uma ótica estritamente técnica. Hoje, nos cursos de engenharia, a preocupação com o meio ambiente é bastante grande. Os outros cursos tratam a questão de maneira diferenciada. Mas os assuntos relacionados ao meio ambiente permeiam todas as profissões.
Empresas de todas as áreas devem contar com profissionais capacitados em meio ambiente?
Sim. Primeiro devido à conscientização. É mais fácil mudar o comportamento das empresas do que o da sociedade como um todo. Algumas iniciativas já estão acontecendo, mas ainda estamos engatinhando. No caso da contrução civil, já existem programas de certificação para edifícios verdes. Eles não são obrigatórios, mas há requisitos que aos poucos vão se tornar obrigatórios. Imagino que daqui uns dez anos vai existir uma mudança na legislação.
Atualmente toda empresa tem que fazer um licenciamento ambiental e o órgão responsável especifica o quanto a empresa pode poluir. Qualquer atividade humana é poluente. A questão que a gente foca é: até que ponto é possível poluir sem provocar um grande dano ambiental?
Quais os riscos que o empresário que não investe em profissionais do meio ambiente corre?
Ele vai se tornar obsoleto ao mercado. Hoje em dia uma empresa que tem sua imagem vinculada à degradação ambiental é muito malvista. O empresário de visão mais estratégica vai adequar a sua empresa para ter um bom desempenho ambiental. Além disso, o consumidor tem um poder grande sobre o funcionamento das empresas. E, por fim, tem as punições legais. E o Brasil tem uma legislação ambiental muito boa.
Serviço
As inscrições para o mestrado ''Engenharia de edificações e saneamento'' terminam sexta-feira, dia 28. Podem se candidatar engenheiros e graduados em áreas afins. Informações pelo www.uel.br ou (43)3371-4727.
Desenvolver novas fontes e produtos eficientes e fazer uso racional da energia
Empresa que tem sua imagem vinculada à degradação ambiental é muito malvista


