NATAL TROPICAL - Uma festa com jeitinho brasileiro
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domingo, 21 de dezembro de 2003
Phoenix Finardi<br> Reportagem Local 
Guirlandas nas portas, pinheirinhos decorados com laços e bolas coloridas, sem esquecer a estrela na ponta; nas ruas, muitas luzes, papais-noéis distribuindo balas; o espírito natalino está também nos cartões e papéis de presente, decorados com renas, duendes e paisagens geladas. Para um autêntico Natal europeu, só falta mesmo a neve e o gelo. E, no entanto, tudo isso acontece num cenário bem tropical, sob um calor de mais de 30 graus.
Não é fácil ser papai noel no Brasil. Sentado num ''trono'' com o formato de uma bota gigante, o ''bom velhinho'' só conta com o ar condicionado do shopping para enfrentar o verão. Vestindo gorro, luvas e aquela roupa vermelha, ele ajeita a barba postiça e os óculos, que teimam em escorregar pelo nariz suado, apesar do pó compacto. ''Papai noel passa muito calor no Brasil. Não é fácil'', diz Anselmer Oliveira dos Anjos, 31 anos, papai noel há vários natais. Ele confessa que já pensou em ''nacionalizar'' o figurino: ''Eu acho que o papai noel brasileiro usaria uma camiseta listrada de vermelho e branco, um bermudão e tênis ou chinelos'', imagina.
O problema seria convencer a ''freguesia''. Anselmer aposta que as crianças e até os adultos ficariam chocados. ''A gente também já pensou em ter um papai noel negro, outro vestindo roupa de skatista... mas a verdade é que isso não funciona. Todo ano a gente pensa em fazer alguma coisa diferente e acaba caindo mesmo no tradicional, que é o que todos querem''.
No entanto, apesar do calor, Anselmer garante que a roupa tem suas vantagens: ''Pode parecer incrível mas ela ajuda a manter a temperatura, e o que é mais importante, absorve o suor. Se a gente usasse regata nesse calor, ia ser um problema. Já pensou uma criança abraçar um papai noel todo suado, com o peito cabeludo e cheirando mal?'', brinca.
Ele também aprendeu alguns macetes com os anos de experiência: ''Uma boa dica é escolher bem o tecido da roupa. O oxford, por exemplo, é ótimo. Já o cetim e o veludo são horríveis, quentes demais. Eu coloco camiseta de algodão por baixo, que ajuda a reter o suor e uso um enchimento especial que funciona como isolante térmico, além de me fazer parecer mais gordo''.
Para quem passa até 10 horas por dia no batente, gostar do que faz é essencial: ''Eu trabalho há anos com crianças e gosto disso, portanto, aprendi a driblar as dificuldades. Quando bate o cansaço ou o calor fica muito forte, dou uma volta, tomo um sorvete, uma água de coco... vai dizer que tem essas coisas lá no Pólo Norte!''.
A empresária Simone Galvão concorda com o papai noel: é muito difícil mexer nos tradicionais símbolos natalinos. ''A gente sempre traz novidades, estilos e cores diferentes, mas o que as pessoas gostam mesmo é do clássico'', aponta.
Dona de uma loja de decoração especializada em artigos natalinos, Simone desfaz a crença generalizada de que a maioria dos produtos são importados: ''Nossos maiores fornecedores são brasileiros. Gente que já aprendeu tudo sobre o Natal europeu''. Ela explica que por causa da preferência e da demanda, a maior parte dos artigos têm maior variedade nas cores tradicionais, vermelho, prateado, dourado. ''Este ano lançamos o rosa mas só nos anjos e laços e têm pouca saída''.
Em anos anteriores, a empresária experimentou comercializar papais-noéis diversificados, vestindo shorts vermelhos e chinelos, mas conta que eles foram rejeitados. ''Trouxemos papai noel com roupa de surfista, de skatista... mas não pegou de jeito nenhum. As crianças, principalmente, não aceitam''.
Criativa, Simone diz que gosta de dar um toque diferente nas árvores que ela monta. ''Uma sugestão bacana é misturar o europeu e o tropical. Como no nosso País temos muitas frutas nesta época do ano, porque não usá-las para enfeitar a árvore junto com as bolas, velas, estrelas e anjos? Bananas, uvas e maçãs ficam lindas e dão um contraste legal com o verde. Quem quiser ousar um pouco mais pode pendurar animais. O que vale é o significado e isso é bem pessoal''.


