Na noite de Natal bem que podíamos, num exercício de criatividade, imaginar coisas que não nos ocorrem cotidianamente. Normalmente vivemos apegados às nossas miudezas, às cargas que temos de suportar e que tantas vezes nos oprimem, à rotina estafante dos afazeres obrigatórios. Não há tempo, dizemos, e é como a vida escorresse pelas frestas do destino, perdendo-se muitas vezes nos vazios abissais da inutilidade. Pior ainda são os patéticos desencontros, provocados por conhecidos atributos negativos do homem tais como: a inveja, a hipocrisia, a mesquinharia, a ambição desmedida, os apegos desnecessários, essas e outras coisas sempre coroadas pelo pior mal da humanidade, e que é a origem de nossa desgraça: a ignorância.
Pois tentemos nos libertar na noite de Natal, nem que seja por um instante, das trevas materiais. Vislumbremos com olhos de anjos que um dia tivemos, o Planeta Terra, essa nave-mãe que nos carrega tão generosamente, e que costumamos destruir impiedosamente. Veremos, então, que ele não passa de minúscula bola natalina entre as incontáveis esferas do cosmos sem limite e sem fronteiras. Giram outros mundos muito além de nós e de nossa arrogância sem sentido, de nossa mania de ser o centro do universo. Neste, a grandeza é tanta e tamanha a vastidão, que convém nos apequenarmos enquanto observamos o firmamento, não com o terror de não sermos nada, mas como crianças que vasculham as estrelas em busca de Deus numa noite de Natal.
Olhemos pois para cima como atônitas crianças que almejam proteção divina. Então, veremos, com a percepção de nossa alma, os olhos de Deus que nos pisca através do tremeluzir de cada estrela. Se pudermos piscar de volta, aí é certo, o Natal acontece. Nasce o intercâmbio entre nós e a Fonte Eterna, e a ponte é construída para nos ajudar a alcançar o que deveríamos ser.
Contudo, difícil é provocar Natal num sentido mais profundo, pois isso é coisa de anjo e de criança. Ainda mais se não elevarmos nosso espírito para o alto, e ficarmos apenas esgravatando o chão como é nosso costume. Isso não levará a nada, quanto mais à árvore de Natal do universo onde incontáveis e esplendorosas luzes nascem e renascem em intermináveis e fulgurantes ciclos de vida como a nos segredar mistérios da eternidade.
Se teimarmos em só olhar para baixo - reparando nos próprios pés que dão voltas sem sentido, enquanto supomos presunçosamente que dominamos todos os caminhos - nunca saberemos das sendas do amor de Deus, que conduzem às estórias de Natal. Aquelas estórias que povoaram as noites de nossa infância com a doce expectativa dos presentes, ou que podem ser evocadas no departamento das suavidades e ternuras de nossa memória. Nesses recantos de reminiscências, onde prevalece a emoção em estado puro, é que se torna possível ouvir os sinos do campanário da nossa imaginação, e saber que é Natal.
Façamos, pois, algum esforço nesta noite especial, e esvoacemos por aí como leves anjos esgarçados. E quando nos dermos conta de que é impossível distinguir entre as estrelas aquela que guiou os Reis Magos, conforme a tradição cristã, não fiquemos tristes ou espantados. Simplesmente tentemos entender uma verdade elementar: todas as estrelas e todos os caminhos conduzem a Ele, que nesse Planeta tem vários nomes e várias estórias de Natal, cada qual, diga-se de passagem, mais bonita que a outra.
Se entendermos essa verdade, sem abrir mão de nossas crenças, faremos germinar no mundo a semente fundamental da paz, que florescerá na tolerância, na compreensão, na aceitação de nossos semelhantes. Mais ainda, saberemos que somos parte de um todo universal.
Essas coisas, é claro, não são compreendidas através de pensamentos formulados racionalmente. Este tipo de raciocínio pertence aos homens. Mas são coisas intuídas através de sensações que só podem ser captadas pelos refinados equipamentos espirituais dos anjos, quer dizer, pelos artefatos encontrados em outras esferas que damos por perdidos na selva humana. Entretanto, eles podem ser resgatados, pelo menos em parte por cada um de nós, especialmente quando é Natal no Planeta.
Este resgate de um outro nível de compreensão fica visível em algumas pessoas e em alguns momentos. Relampeia na palavra de incentivo, no gesto de boa vontade, no apoio dado na hora certa. Está entre os que servem com alegria, os que doam com verdadeiro desprendimento, os que se sacrificam pelo próximo sem nada pedir em troca. Em suma, a suprema essência dos anjos chama-se Amor de Deus, e dorme no fundo dos homens.
Infelizmente, com grande frequência a criatura humana transforma amor em ódio, e em vez de criar, destrói. Pode-se destruir através de guerras, quando culminam conflitos de profunda intensidade. Ou simplesmente através da usual prática da apoquentar a vida alheia, o que resulta em medíocres escaramuças cotidianas. Neste último caso, muitas espécies de morte são infligidas sem que se tire a vida no sentido material.
Mas esse ser conturbado que se sente o centro do universo, apesar de só agora estar arriscando uns tímidos passos além do Planeta; que individualmente carrega suas verdades de forma radical, em que pese vacilar diante do conhecimento de sua origem e destino; que costuma destruir de forma implacável como um deusinho de quinta categoria, é também capaz de converter atributos negativos em positivos na medida em que: sendo partícula universal, é microcosmo perfeito; nada sabendo aparentemente, desenvolve potencialidades latentes que surgem às vezes como dons surpreendentes; e apesar de sua natureza predadora guarda também a maravilhosa capacidade de criar, sinal da essência divina. Por isso criou o Natal para renascer sempre enquanto, do Planeta Terra, vasculha o céu infinito.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga e professora universitária em Londrina
E-Mail: [email protected]

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