Existem notícias que dispensam recados. De segundos ou de terceiros! Têm que ser dadas pessoalmente! A Boa Mensagem do Natal é a maior delas! Numa noite escura, quiçá numa madrugada fria, o autor do ser humano, se fez Ele mesmo homem. Antes de abrir os seus lábios, ou até de realizar algum feito extraordinário, ali está Ele deitado numas palhas improvisadas, falando com a humanidade. A eternidade adentrou no tempo sem estrondo. O divino se achou humano, sem invasão. A salvação se tornou um presente! Jesus, o salvador, respirou pela primeira vez o oxigénio dos mortais e ao receber a mirra vinda do oriente, se autoproclamou também ele, finito no tempo. Até à morte! De cruz! Um Deus que passa a ser contado pelos dias, vindo do dia sem ocaso.

O homem entra no Natal se arrastando com as suas finitudes e emerso nas inúmeras contingências, que lhe roubam o brilho dos olhos, e levanta-se com a grandeza que a humildade do seu Deus lhe devolve! Belém é mais do que a Casa do pão. É a maternidade inusitada na manjedoura pobre, onde Deus recém-nascido, dá à luz homens novos. Natal é o encontro por excelência. De quem sendo rico se fez pobre e de quem se enriquece pela simples presença. Encontro, que se transforma em trampolim para o resgate do humano perdido. Um processo. Um processo que começa ali, mas vigora até hoje. Como todo o processo que se preze, é um parto demorado. O homem continua manifestando em inúmeros gestos a desfiguração que parece lhe roubar a sua verdadeira identidade; mas em Belém, soaram os sinos de uma oportunidade que não podemos perder.

Um sorriso poético de um bebe indefeso, ao homem a caminho da descoberta de sua verdadeira identidade. Eis o Natal. As cores vivas da esperança, pintam esse quadro que é o mais tradicional do mundo ocidental. O ser humano pode sonhar. Pode construir, pode-se reinventar. Agigantou-se no espaço e no tempo, aquele que vivia apequenado na noite escura da história, tateando o sentido de uma existência marcada pela náusea e pelo vazio, como um astronauta perdido no espaço sideral. Belém traz em seu bojo o essencial: a fugacidade da vida, não representa um fim em si mesmo. Há sentido em tudo que o homem realiza! O barro psicossomático e espiritual, nas mãos desse oleiro, que um dia o chamou à existência e agora o visita para o redimir, é o protagonista de uma história, que apesar dos fracassos e contradições, caminha para um fim pleno. Cabe a ele, seguindo a estrela de Belém, tornar o seu habitat mais parecido com o sonho do seu criador. O humano que regressa do presépio que contemplou, volta como os magos, “por outro caminho”!

Vivemos distantes dessa noite fria do solstício de Inverno no Hemisfério Norte. Não apenas cronologicamente, mas talvez, o pior, muito afastados no pensamento e no modus operandi que caracteriza o Sapiens do século XXI. No século passado tivemos duas Guerras Mundiais devastadoras e hoje, ao que tudo parece, ostentamos comportamentos que demonstram nada termos aprendido, ou esquecido rapidamente! As trevas teimam em cobrir mentes e atitudes, aniquilando o espírito natalino. Tratamos o Meio ambiente longe de qualquer advertência da ciência e discriminamos classes e raças não muito diferentemente de nossos antepassados. Não se trata de religião. Aliás, a religião em muitas oportunidades conspira contra os valores e o renascimento, preconizados na Judeia há dois mil anos. Falamos de humanismo. E como nos lembra o dicionário, de tudo que valoriza o ser humano e a condição humana, acima de tudo. Generosidade, compaixão e preocupação em valorizar os atributos e realizações humanas. E aqui, inserimos nova forma de reflexão sobre a arte, a ciência e a política. O Natal, colocou o homem no centro, iluminado por uma proximidade estonteante do seu Deus, criador e salvador!

Um Feliz Natal a todos os leitores da Folha de Londrina!

Padre Manuel Joaquim R. dos Santos, Arquidiocese de Londrina.

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