Nas mãos do eleitor
Passado o espetáculo da acareação, ontem no Conselho de Ética, os senadores Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA) e José Roberto Arruda (sem partido-DF) passam a contar com a futurologia. Será que o assunto será esquecido pela opinião pública a tempo de preservá-los? O relator Roberto Saturnino (PSB-RJ), que ouviu muitos apelos de eleitores do Rio de Janeiro pela punição, irá pedir a abertura de processo pela cassação ou suspensão temporária do mandato? E o humor dos outros 78 senadores? Será que é pela cassação ou uma punição mais branda?
São tantas perguntas que nem mesmo os búzios da Bahia de Antonio Carlos conseguem responder a todas. Um rio de incertezas percorre as análises feitas tanto pelos baianos aliados a Antonio Carlos quanto pelos familiares de Arruda. Mas num ponto todos concordam: permanecer no Congresso em meio a esse clima de insegurança quanto ao futuro pode ser um risco para os dois.
Antonio Carlos, de 73 anos, 50 de vida pública, não pode se dar o luxo de apostar em oito anos de geladeira, ou seja, sem disputar eleição. E, se ficar no Senado para ser processado, correrá esse risco. Na hipótese de renúncia, voltará à Bahia, onde saiu às ruas nos últimos dias e obteve apoios. Poderá dizer que foi vítima de prejulgamento e não quis ficar ali, no Senado, para servir de bode expiatório, enquanto quem roubou dinheiro público continua por aí.
Vejamos Arruda: tem 47 anos. Poderia esperar oito para ser candidato. Mas não tem, em Brasília, a história e muito menos os votos de Antonio Carlos. Seria esquecido em pouco tempo. Se sair do Senado, antes de qualquer julgamento definitivo por parte de seus, praticamente, ex-colegas, Arruda pode sensibilizar o eleitorado com o discurso da confissão, onde falou da vontade de ter uma nova chance, do recomeço.
Os dois, embora neguem, montam esses cenários. Seria a forma de deixar de contar com a linha fina entre a suspensão do mandato versus cassação e acordos, que podem ser inconsistentes para sustentar o peso de um ex-líder do governo e de um orixá da política baiana.
Ao sair do Senado, eles ficarão à mercê do julgamento do eleitor. Terão um ano e meio para mostrar que não são os saqueadores pintados no caso de violação do painel eletrônico e marcar a diferença entre o ter acesso a uma lista de votos secretos e o roubar dinheiro público.
Se vai dar certo, é uma incógnita. Mas os dois acreditam que ficar nas mãos do eleitor é um desafio muito mais interessante do que ser julgado pelos senadores, que, assim como eles, também estão hoje de olho no futuro.
- DENISE ROTHENBURG é jornalista em Brasília





