NAS ENTRELINHAS - 'Livro é como ar, você precisa dele'
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sexta-feira, 06 de fevereiro de 2009
Marco Feltrin<br>Reportagem Local 
Qual foi o último livro que você leu? Se a resposta demorou para vir à cabeça, você faz parte de uma estatística nada animadora: 45% da população brasileira assume não ter o hábito da leitura, segundo pesquisa encomendada pelo Instituto Pró-Livro.
Na avaliação da doutora em Educação e professora da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Lucinéia Aparecida de Rezende, o problema começa desde cedo, já que muitos pais não incentivam e nem mesmo a obrigação da leitura nas escolas é cumprida. Ela admite que os livros no País são caros, mas enfatiza: não há desculpa para não ler. ''Temos ótimas bibliotecas e sebos onde se descobrem maravilhas por R$ 3.''
O brasileiro lê uma média de 4,7 livros por ano. Entre os adolescentes de 11 a 13 anos, a média sobe para 8,6 livros/ano. A senhora considera a estatística positiva?
Se considerarmos que só lemos livros, é pouco. No entanto, eu trabalho na perspectiva de múltiplas leituras. Lê-se a palavra, as imagens, os sons. Além disso, lemos jornais, revistas, livros, apostilas e diferentes coisas. Mas a estatística é baixa, mesmo entre os jovens.
O aluno lê na escola porque é obrigado e por isso não cria um hábito, um prazer de leitura?
Precisamos trabalhar dois lados: leitura não deve ser só obrigação. Por outro, nós não trabalhamos nem a obrigação, não só com relação à leitura. No dia a dia, as pessoas estão com uma vontade muito frágil diante da vida. Vontade de lutar por si próprio, de ter um planeta em melhores condições de vida, de estudar mais, de saber. Nos últimos 20 anos, pelo menos, não temos trabalhado a obrigação. O sujeito como responsável pelas suas ações. Sem essa tarefa, não vamos a lugar nenhum. Nem a leitura deve ser apenas imposta, nem as obrigações podem ser deixadas de lado.
Como é possível despertar o interesse dos jovens pela leitura?
Se o jovem é destituído de vontade de aprender, de ser melhor na vida, fica muito difícil mudar este quadro. Mas ferramentas como o jornal, por exemplo, são fantásticas para começar a criar o hábito. O jornal traz o cotidiano, a realidade próxima das pessoas. Se ele quer aprofundar, vai atrás de um livro, um artigo especializado. É um caminho extremamente necessário para o sujeito se aproximar e entender seu mundo.
E o papel do computador na questão da leitura: no final das contas, é positivo ou negativo?
Se formamos bem as pessoas, temos quem irá usufruir do computador e da internet de uma maneira altamente positiva. O problema é que algumas pessoas usam sem o comprometimento de aprender. Se nos contentamos com o raso, o superficial, não adianta culpar o computador. Nós somos assim em tudo. Precisamos formar gente, e a leitura faz parte disso, através de um mediador, que pode ser a mãe, o pai, o irmão, o tio...
Não é uma responsabilidade exclusiva do professor, da escola...
A escola tem um papel fundamental nisso, mas quanto mais a família auxiliar, melhor vai ser o desempenho na escola. Se a família deixa tudo pra escola, corre o risco de não ter um filho leitor nunca. É tarefa de pais e professores mostrarem aos outros que eles leem e se sentem bem, faz perceber outras coisas, acrescenta. Não como quem conta e dá lição de moral, mas como forma de incentivo.
Livro ainda é um objeto caro no Brasil?
O livro ainda é caro e nós não temos todas as livrarias que gostaríamos. Em Buenos Aires, há praticamente uma livraria em cada quadra nas principais avenidas. Livro é como ar, você precisa dele. Quando eu tenho um livro, não tenho apenas um objeto, mas sim um universo, um mundo que tem coisas para me dizer e que eu posso negar, contestar, aceitar. Mas ainda é um objeto caro, e poderíamos ter isso facilitado. É um círculo vicioso: lê-se pouco, produz pouco, o livro é caro. Por outro lado, as editoras investem pouco neste mercado de formar leitores, de produzir maciçamente. Mas não há desculpa para não ler, porque temos ótimas bibliotecas e sebos onde se descobrem maravilhas por R$ 3, R$ 5, R$ 10.
A senhora citou as bibliotecas. Como é possível tornar este espaço mais atrativo para as pessoas?
Muitas pessoas dizem que a maioria dos livros das bibliotecas é defasada. Mas temos vários clássicos que nunca são velhos. No exterior, pessoas de todas as idades estão lá nas bibliotecas para ler livros, jornais, tomar café, discutir os mais variados assuntos. Aqui a gente ainda tem pouco disso. Todo serviço público poderia ter uma pequena biblioteca. As pessoas gastam tanto tempo na fila esperando atendimento, e poderiam ter acesso a uma pequena estante com contos de grandes autores brasileiros para, a partir daí, despretensiosamente, criar um hábito de leitura.


