Nas dobras da hipocrisia
Renzo Sansoni
Uma historinha sempre me intrigou, por sua aplicação na vida de todos os homens. Um jovem príncipe, querendo desfazer de seu idoso pai, resolve levá-lo para um lugar bem distante. Convencendo o velho a sair para um passeio sem volta, o príncipe planejava deixar o rei no meio da mata, sob os cuidados dos animais ferozes. Percebendo a perversidade na alma do filho, o monarca, entre resignado e entristecido, grita-lhe aos ouvidos: ‘‘Meu filho, não faça isto com seu único e eterno amigo na terra. Sei que estou na hora de partir desta vida, já estou velho e doente e não ajudo em mais nada. Mas, não faça isto. Não por mim, mas por você, que é jovem e ainda não tem as mãos manchadas pelo crime. Eu fiz isto com seu avô e queria morrer com a certeza de ver meu filho livre desta ignomínia...’’
Sinto ojeriza e desânimo quando deparo com programas da maioria dos partidos políticos. O Brasil tem quase 6 mil prefeitos: a metade já deve estar processada. Quase todos os governadores têm processos. A falta de educação, de inteligência, de compromisso com o cidadão brasileiro, recheadas com uma profusão de inverdades, são de arrepiar e de mandar, às favas, tanta fanfarronice e tanta canalhice. Já até desconfio que o melhor sinônimo de partido seria alcatéia esfaimada: aglomerado de lobos que querem porque querem comer os olhos dos outros.
A figura do presidente da República não pode, em democracia cristalina, ser lambuzada, e jogada na lama, por tanta vontade de aparecer, demonstrada nos circos televisivos do horário político gratuito. Não sou apaixonado e nem irado contra o atual presidente: tem seus méritos e tem seus erros. Mas ele encarna a figura máxima da política nacional. Está no lugar onde todos esperam e sonham chegar algum dia.
Daí aos ataques obscenos e desrespeitosos, e uivos tipo ‘‘Fora FHC, traidor FHC’’, indigitando-o como o judas único e traiçoeiro do processo político nacional é de um cinismo tupiniquim repugnante. A presidência da República, juntamente com seu ocupante, se quisermos ter saúde e longa vida democráticas, não pode ser trazida para o calor infernal das péssimas propagandas e arengas destes partidos políticos. E o mesmo princípio vale para outras eleições: de governadores a vereadores. O bom gosto e a elegância tem mais sintonia com a alma do brasileiro, do que supõe a rarefeita filosofia e percepção de nossos comandantes partidários.
Vamos todos ficar de olho vivo, e crítico, contra esta forma errada de fazer o brasileiro comum entender os problemas nacionais. Não é jogando pedras e alicantinas dentro dos lares e cabeças dos brasileiros que tal, ou qual, partido sairá mais vitorioso nesta arena de bárbaros e espertalhões.
O Brasil sempre pagou um preço muito elevado pela oratória inflamada dos abundantes e falsos messias, figuras enganadoras e estigmatizadas pela mediocridade. Os tempos estão mudando para melhor; porém, os lobos da política continuam com a mesma falta de ética e de compromisso com o que, de mais puro, caracteriza a democracia: a transparência.
Juntos, povo e autoridades devem coibir o mau uso do horário político, decretando o fim da pouca vergonha e do nenhum respeito aos homens e mulheres que desejam fazer política de primeira linha. O único remédio curativo para candidato errado é o voto bem aplicado. O Brasil merece higiene e asseio nas palavras e nas campanhas eleitoreiras.
- RENZO SANSONI é médico em Uberlândia

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