Elvis Presley provou que havia vida abaixo da cintura, inventando o laissez-faire l’amour, aliás, o amor livre. Che Guevara, pioneiro às avessas da globalização, deu a vida por um povo que não era seu, numa época em que a generosidade começava a sair de moda. Os dois tiveram a vida interrompida cedo pelos instrumentos que ajudaram a divulgar: o êxtase químico e a imposição da virtude pela violência. Mortos e sepultados, sua lenda foi elevada aos altares da religião do consumo desenfreado, a doença infantil do capitalismo.
Agora, uma jovem inglesa, que não era uma esportista fora de série, não fazia parte dos 500 da Fortune, nunca escreveu uma canção nem sabia o que diabos Karl Marx quis dizer quando descreveu o mecanismo da ‘‘mais valia’’, teve seu corpo ensanguentado arrancado das ferragens de um automóvel de luxo para que sua alma se elevasse para o lado direito dos ícones do século. A beleza serena e saudável de Diana Spencer penetrou na galeria reservada àqueles que gozaram do paraíso e do inferno de um século em que se garimpa a fama como antes se peneirava ouro. A barbicha de Lênin, o sorriso de Kennedy e a saia de Marilyn erguida pelo vento passaram a ter em seu penteado uma concorrência notável.
Seu rosto é recordista absoluto nas capas de jornais e revistas - e não apenas da Europa, mas também da América, não somente dos tablóides sensacionalistas, mas ainda de diários respeitáveis. Sua cútis perfeita de jovem branca e rica do Primeiro Mundo enfeitou 44 vezes a capa de ‘‘Vanity Fair’’. Nenhum estrondoso sucesso musical, nenhuma revolução política, nenhuma fortuna monumental - nada disso proporcionou a ninguém tal frequência naquela galeria da fama frívola.
A grande pergunta é por quê. Sim, ela se casou com o príncipe herdeiro do trono britânico, mas e daí? Trata-se de um soberano que nunca mandou nem vai mandar em nada e, além do mais, de um ser humano absolutamente desprovido de algum encanto pessoal. Jackie Kennedy Onassis casou-se com o dono do mundo nos charmosos anos 60 e com o maior de todos os milionários, mas, apesar de toda a sua fama, não foram tantos que choraram sua ausência nem multidões clamaram por vingança.
É possível que parte da explicação esteja na simbiose existente entre o mercado selvagem do capitalismo globalizado e o arquétipo perene da Cinderela. A professorinha, que ganhou a vida como babá, calçou os sapatos delicados da linda lenda como se fossem luvas. E permaneceu no imaginário popular, ao inverter outra história da carochinha: afinal, ela beijou o príncipe e ele terminou virando um sapo... na sua cama.
Sem pretensão de dar a palavra definitiva sobre fenômeno tão espetacular, eu ousaria acrescentar dois arquétipos, cuja presença é marcante em nossa época, na qual as vaidades queimam nas fogueiras como as bruxas medievais. A primeira e mais óbvia aproximação é com Don Juan, personagem que representa como poucos o apetite desmedido de tudo e a permanente insatisfação de uma sociedade ávida por novidades, a ponto de violar os espaços antes sagrados da intimidade sem a menor cerimônia.
O outro arquétipo, mais antigo ainda e nem por isso menos definidor da mentalidade vigente em nossa sociedade de massas, é o de Narciso. A história do galã, que se apaixonou pela própria imagem refletida no riacho cristalino e se afogou, se repete diariamente - na descoberta do corpo e na busca desesperada da juventude, mas, sobretudo, no comércio pirotécnico da notoriedade a qualquer preço. Andy Warhol, outro ícone pop deste século, disse que, algum dia, todos seriam famosos por pelo menos cinco minutos. Persegue-se a realização dessa profecia com avidez, mesmo que, para isso, seja necessário posar na própria banheira para uma revista de fofocas.
Os jornais do mundo inteiro reproduziram - e este jornal deu destaque merecido na primeira página - um instantâneo, reunindo a princesa de Gales e a primeira-dama da caridade cristã, Madre Tereza de Calcutá, também agora desencarnada. Aquela singela reunião das duas mulheres famosas por motivos opostos é também a constatação de que a religião de nosso tempo é a glória da notoriedade. E, apesar da aura de pureza d’alma que emana das duas, seus padroeiros são Narciso e Don Juan.

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