Não somos como os ingleses
Maria Lucia Victor Barbosa
Quando observo espetáculos como o protagonizado recentemente pelo PMDB na sua convenção nacional, onde as estrelas de maior brilho eram, entre outras, Itamar Franco, José Sarney, Orestes Quércia, ou mesmo o famoso homem de Mombaça, Antônio Paes de Andrade, me vem à memória o que escreveu Oliveira Vianna em ‘‘Instituições Políticas Brasileiras’’, a respeito da política e dos políticos: ‘‘Respiramos política, vivemos embriagados por ela - e valorizamos em altura desmedida os que a praticam. Homúnculos, que seriam sem significação num meio de educação política mais exigente, elevam-se aqui a alturas olímpicas de semideuses. Postos em outro meio político mais educado, como o britânico, por exemplo, virariam de pronto não-valores absolutos. Nesse ponto, é evidente que não somos como os ingleses’’.
Tomado em termos genéticos, esse pensamento de Oliveira Vianna pode parecer injusto ou excessivo. Tivemos e temos políticos aos quais se pode chamar de estadistas, como no passado Juscelino Kubitschek e no presente Fernando Henrique Cardoso. Porém, olhando a paisagem política brasileira, dos municípios aos estados até chegar ao plano federal, o que podemos ver, se tivermos olhos para isso, é uma multidão de homúnculos que se comprimem em volta do poder, enquanto uns poucos homens se sobressaiem entre eles por sua estrutura moral e conduta adequada à função.
Esta paisagem desoladora continuará a existir enquanto não houver um mínimo de disciplina, que a meu ver começa com a fidelidade partidária, instrumento capaz de impor certas regras para quem mudasse de partido ou desobedecesse as grandes diretrizes acatadas pela maioria dos seus pares, como, por exemplo, a inelegibilidade em próxima eleição. Somente a partir da fidelidade partidária se poderia falar em partido nacional, e se impediria o vai-e-vem constante dos políticos por siglas ocas de doutrinas, programas e idéias.
Tem razão, portanto, o deputado Fernando Lyra quando diz que o PMDB ‘‘se divide em capitanias hereditárias, cada uma com seu coronel’’. Aliás, o PMDB, derivado do MDB, criação artificial do Ato Institucional nº 2, sempre foi uma miscelânea partidária. De tão crescido e inchado, rachou, sendo que a fração que dele se destacou para formar o PSDB levou seus melhores quadros.
Agora parte do PMDB se insurgiu justamente contra o que já teve de melhor, e o embaixador Itamar Franco, nomeado pelo presidente Fernando Henrique, desejou - e parece que ainda deseja - confrontar-se com este na próxima eleição. O mesmo desejo arde no coração do senador Sarney, que quer de novo ser presidente, para com certeza reeditar a catástrofe que foi sua passagem pelo cargo mais alto da República.
E assim, toda a ala do PMDB que deseja candidatura própria agiu como sempre agiu o partido como um todo, que sempre conseguiu a proeza de ser ao mesmo tempo situação e oposição. Ou conforme a expressão cunhada por meu filho Bruno, atento observador da política, alguns caciques do PMDB usaram o velho sistema do ‘‘caiu o cheque’’. É que quando ‘‘cai o cheque’’ do favor, do pedido atendido, geralmente políticos (e também eleitores), dão as costas e vão cantar noutra freguesia. ‘‘Mudam-se as circunstâncias, mudam-se os compromissos’’, como dizia o saudoso personagem Odorico Paraguassú, e assim será cada vez mais até que a fidelidade partidária venha dar certa consistência a esses clubes de interesses aos quais chamamos de partidos políticos.
Evidentemente, as mazelas dos nossos partidos não existem apenas no PMDB, em que pesem as particularidades dessa agremiação que já foi chamada de frente de oposições. Também os maiores partidos possuem suas ‘‘capitanias hereditárias’’ e seus ‘‘coronéis’’. E nos pequenos partidos há sempre um ‘‘coronel’’ ou um dono, o que faz rememorar os tempos coloniais, onde nas capitanias hereditárias um senhor patriarcal, um sinhozinho despótico, foi a origem do poder personalizado que ainda hoje se cultua no Brasil.
Nossos partidos são clubes de interesses. E nenhum escapa. E quem quiser apontar o PT como exceção, basta lembrar que Lula, o ex-combativo líder sindical, agora quer juntar Quércia e Antônio Ermírio no seu barco petista. Um barco que está fazendo água por todos os lados. Definitivamente, não somos como os ingleses.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga.
Artigo resumido para adequar-se ao espaço disponível

mockup