Não só motivar, mas conscientizar - Walmor Macarini
Não só motivar, mas conscientizar
Walmor Macarini
A música motiva as pessoas a que cantem e dancem, e é bom, sob o ponto de vista da alegria e do deleite. E se há alguém com o carisma de induzi-las, aí elas podem chegar ao êxtase. Quando é o orador que discursa, se dotado do mesmo predicado ele arranca aplausos e manifestações de entusiasmo, e tudo bem se a idéia é promover a comoção.
As pessoas, atribuladas com seus problemas, sempre acorrem a quem lhes faça um aceno. Enquanto cantam e dançam esquecem os problemas. Se o público-alvo é o jovem, é providencial e oportuno sensibilizá-lo para a questão das drogas e da AIDS, e esses temas estão muito presentes em tais manifestações. Isto tem ajudado, sim, a livrar gente desses perigos.
Mas, se esses movimentos motivam, a pergunta é se eles também conscientizam. É preciso que não se perca de vista essa meta, a de conscientizar. Para que, cada um, passado o entusiasmo, tenha realmente encontrado o caminho, e se guie pelo sentido de sua própria consciência.
Vivemos momentos de vigorosas campanhas, das mais diversas denominações religiosas, sobretudo pelo rádio e pela televisão, para arregimentar novos adeptos e preservar os existentes. E as pessoas, não necessariamente em busca de elevar-se espiritualmente, mas de solucionar seus problemas de saúde, financeiros e afetivos, envolvem-se nessas correntes e se entregam de corpo e alma. Percebe-se a motivação, mas não grandes sinais de conscientização, eis que o estado de consciência manifesta-se não com estardalhaço, mas sereno e silencioso.
Na verdade, são fórmulas complexas de buscar aquilo que deveria ser simples: o homem compreender-se, em qualquer circunstância, pleno de sua espiritualidade, porque isto independe de estado emocional, de doutrinas e de rituais. Basta-lhe a consciência. O estado de plenitude, que é aquele momento de quietude interior, lhe dará todas as respostas que busca, e elas o levarão ao entendimento, que de sua vez anulará ou amenizará os medos, as dúvidas e as angústias.
O homem não vislumbrará as luzes do caminho se ficar buscando respostas que lhe chegam de seu exterior, porque dentro dele, e apenas dentro dele, estão todas as verdades. É ali que reside o ponto de conexão com seu eu mental superior. Ali, recolhido ao silêncio interior, ouvirá não as vozes que lhe vêm através dos ouvidos mas a voz do próprio espírito, que é o canal que o conecta com a sua eternidade.
Tem o homem o livre arbítrio de buscar onde quiser o alívio para as suas dores e as respostas para as suas indagações, mas ele despreza o mais sagrado dos lugares, que é o seu santuário interior. Ali ele encontrará Deus. Ouvindo só as vozes que lhe entram pelas vias exteriores o homem veio perdendo a intimidade com a voz que emana de sua própria essência, justamente esta que lhe indica os melhores caminhos e lhe revela as grandes verdades. É que temos, por comodidade, nos habituado a ouvir a orientação que nos dão os outros (escritos como este incluídos), desprezando essa fiel e aliada conselheira que é nossa intuição.
Na sua relação com o transcendente invisível - que é de fato a sua realidade, em contraposição aos seus sentidos físicos, que são temporais e transitórios, não obstante preciosíssimo o corpo carnal enquanto dure - o homem posicionou-se na dualidade de que ele está aqui na Terra e lá em cima está o mistério, quando ele próprio é parte do mistério. Expulsou Deus para o Céu, afastando-O de dentro de si. Egoisticamente bipartiu-se, para depois prostrar-se em súplica clamando pela Sua graça, quando toda a graça já lhe está concedida, por dádiva. Basta servir-se dela, e para tal só precisará trazer Deus de volta...
De luz de que é feito em sua essência, porque emanada da própria substância de Deus (portanto à Sua imagem e semelhança), o homem em sua individualidade compõe a unicidade de tudo o que é e existe; compõe Deus, porque Deus não tem a forma que imaginamos e não está à parte da Criação. Assim como cada gota é o oceano.
O homem e todos os seres e coisas do Céu-e-da-Terra são Deus experienciando a grande vida.
Nós, seres humanos, estamos na Terra voluntariamente. Viemos a serviço de um projeto divino. Somos os mesmos e temos uma só vida, embora tenhamos passado por diferentes embalagens, nas nossas idas e retornos. Somos nossos próprios antepassados, com alguns acréscimos e algumas variantes. E faz já alguns bons milênios. Foi longa e extenuante a tarefa, mas ela já está quase concluída. Disto, quem não sabe, saberá melhor no definitivo retorno, que não está longe. E para um grande número este será um retorno definitivo mesmo. Outros irão chegando e nós iremos indo, eis que os tempos são chegados. Porque, arquitetos e engenheiros de mundos, que agora somos, há uma nova e gigantesca obra da qual iremos gloriosamente participar. Que o Céu não é descansar sentado à mão direita de Deus-Pai todo-poderoso... Que cada qual vá preparando o espírito. Literalmente falando.
Conhecer a verdade, de que se fala, significa assumir a consciência de que não somos este ser carnal que vislumbramos diante do espelho. Este é apenas um envoltório. O que ele guarda é que é a nossa realidade. O que vemos é o irreal; o invisível é o verdadeiro. É este ser que devemos ouvir, e ele se manifesta pela intuição. Se nos habituarmos a essa prática veremos dissiparem-se os problemas. E passaremos a viver em plena harmonia.
WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina





