Não se nasce mulher
PUBLICAÇÃO
sábado, 02 de novembro de 2002
Moacir Costa 
A escritora francesa Simone de Beauvoir, estudiosa da alma, dos sentimentos e da sexualidade feminina, dizia que não se nasce mulher, torna-se mulher. E, infelizmente, ela chega ao mundo sem um manual de instrução. Faz uma travessia muito solitária nesse continente negro, em busca de sua sexualidade.
A complexidade desse processo feminino interfere no mecanismo de desejo, na dificuldade de entrar em contato com a excitação e na descoberta do prazer. É comum a mulher jovem ter uma sensualidade à flor da pele, mas é difícil escutá-la comentar a respeito de orgasmos múltiplos. Esse quadro vem mudando nos últimos 20 anos, mas ainda há uma ansiedade grande da mulher quando se trata de experimentar o prazer, fazendo com que ela se retraia e tenha dificuldade em conversar sobre as suas frustrações.
Isso acontece porque, assim como a feminilidade, a sexualidade também não nasce pronta. Ela é consequência das primeiras experiências de vida, do relacionamento afetivo e do contato com o pai, a mãe, os irmãos e os amigos ainda na fase escolar.
Existe uma diferenciação muito grande entre a sexualidade masculina e a feminina. O homem descobre muito precocemente o sexo, em decorrência do próprio estímulo que recebe da sociedade. O fato da genitália ser exposta também contribui, porque o homem mantém uma relação de intimidade com o seu órgão sexual, às vezes de forma até obsessiva, fruto de uma ansiedade não resolvida.
Já a genitália feminina é parcialmente oculta, fica quase em recatado segredo. Precisa ser descoberta no interior do corpo. Para complicar, a mulher ainda dispõe de dois sistemas de prazer: o clitoriano e o vaginal. Há quem passe a vida inteira tentando entender se o gozo é clitoriano ou vaginal, se um é imaturo e o outro está ligado à maturidade. Na verdade, isso é uma grande bobagem, pois o importante é o prazer.
O fato da mulher ter pouco ou nenhum contato com a área genital faz com que não tenha intimidade com o seu próprio corpo e até desconheça as suas zonas erógenas. Às vezes, reprime de tal forma essa lembrança que não consegue recordar que na infância ou na puberdade chegou a se masturbar ou mesmo se tocar. A verdade é que a maioria nem chegou a entrar em contato com o próprio corpo por causa do medo, da repressão e dessa coisa obscura que é a sua sexualidade.
Assim, a mulher constrói o seu caminho sexual muito mais carregado de mistério e dúvidas. Muitas carregam um sentimento de inferioridade e inveja, como se as outras tivessem uma vida sexual feliz. É pura bobagem. A mulher não pode mais abrir mão do prazer e ficar guardando seus segredos em silêncio. Tem de buscar no homem uma parceria que estimule as trocas entre eles e a ajude a se sentir mais segura, contribuindo para o seu crescimento afetivo e amoroso.
O direito ao prazer é uma conquista, aliada ao sucesso e realização em outras áreas.
MOACIR COSTA é médico psicoterapeuta e autor do livro ''Sexo: o dilema do homem''


