NÃO SABE, NÃO PASSA - Aprovação com consciência
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008
Thiago Nassif<br>Reportagem Local 
Com 23 anos dedicados à educação, Cláudia Santos Codato, diretora do departamento pedagógico da Secretaria de Educação de Cambé, já conviveu com todos os lados do ensino. Graças à vivência como professora e coordenadora, Cláudia sabe das necessidades que envolvem o ambiente do giz e quadro negro.
Em entrevista à FOLHA, ela admite um alto índice de reprovação no município, mas reforça que isto é necessário para manter a qualidade de ensino e fazer com que o aluno saia da escola realmente com conteúdo. Passando o estudante para a série seguinte, na opinião de Cláudia, a defasagem de aprendizado cresce, acumula, deixando a situação mais grave a cada ano.
A retenção de alunos ainda é uma realidade em Cambé? Qual a melhor forma de combatê-la?
Sempre tivemos um alto índice de reprovação. Não adianta aprovar uma criança na primeira série se a defasagem de aprendizado for muito grande. Isso acumula e fica mais grave a cada ano. Acredito que devemos reter na série necessária para depois buscar a redução dos índices de reprovação. Sempre com qualidade e consciência.
Qual o resultado se não houver retenção?
Cito um exemplo: em meados dos anos 80, começamos a verificar que as crianças chegavam à terceira, quarta e quinta série com alguns erros muito básicos, como escrever sapato com ''ç''. Isso é preocupante. A partir de então, passamos a repensar onde estavam os erros. Alunos que não sabem escrever o próprio nome em letra maiúscula não podem ser postos no Ensino Médio.
Quando se fala em desempenho dos alunos fica impossível não relacionar à qualidade dos professores...
Exato. O investimento na formação é fundamental. Muitos professores têm ótima bagagem mas, uma vez colocados em sala de aula, todo conteúdo absorvido no curso de pedagogia deixa a desejar. Para ser professor é preciso ter o dom, não apenas entender determinado assunto. Tem que gostar daquilo que faz e não pensar em valores: escola é criança, é barulho, é agito, é ser humano, há muita coisa envolvida.
O aluno que não aprende foi bem ensinado?
Sempre fazemos essa pergunta. As relações com professores e alunos têm que se pautar no diálogo e na conquista. Os alunos são constantemente avaliados. Os professores, por sua vez, também têm de ser avaliados. Mais do que ensinar bem, o professor pode sempre agir de uma maneira diferente ou reforçar um conteúdo. As avaliações são o despertar para a melhora dos professores e marcam sempre um recomeço.
Sobre a experiência com o ensino fundamental de nove anos, qual foi o resultado?
Em Cambé, achávamos que o ano passado seria terrível, pois fizemos o ajuste do corte etário para tentar iniciar o fundamental de nove anos e tivemos um aumento das crianças na primeira série. Na proporção, a retenção de alunos foi menor, para nossa surpresa. Entre os professores, ainda há o medo do novo, de propor algo diferente. A escola ainda é o giz e o quadro negro.
Dá para fugir disso?
Sim, mas fica o receio de mudar, a incerteza. As mudanças acontecem aos poucos. Hoje é importante chegar nos professores, dizer o que fica melhor. Não no sentido da punição, mas de realmente ajudá-lo a crescer. Os professores que ingressaram nos concursos e disseram nunca ter entrado em uma sala de aula tiveram bons resultados. Aqueles que se dispõem a aprender, que já vêm com o dom, têm facilidade em se abrir e absorver novos conhecimentos.


