Meu artigo ‘‘A foice e a enxada no século XXI’’, publicado neste Espaço Aberto sábado passado provocou, como os demais que escrevo, algumas reações. As que recebi pessoalmente foram de agrado, mas houve uma, publicada nesta semana na seção O Leitor Escreve deste mesmo jornal, que certamente demonstrou o inconformismo com relação às minhas idéias por parte do Sr. Peter Van Meerbeek, sociólogo de Lindoeste que parece ser meu leitor assíduo, pois inicia seu texto da seguinte maneira: ‘‘Após leitura das opiniões da Maria Lucia Victor Barbosa, quase sempre me dá vontade de responder. Mas dessa vez não posso ficar calado’’.
Com base na carta farei algumas ponderações ao missivista de Lindoeste, destinadas também aos demais leitores, porque a questão relativa às invasões feitas pelos sem-terra (ou seriam sem-lei?) que o sociólogo trata de forma idílica como se fossem angelicais projetos de agricultura familiar, é assunto grave que interessa a toda sociedade, e não apenas aos mentores do MST ou aos proprietários esbulhados por bandos que já vão tomando a feição das quadrilhas que, aliás, agem impunemente.
O Sr. Meerbeek, depois de externar sua vontade de me responder ‘‘desta vez’’, seguiu em frente da seguinte maneira: ‘‘A visão da agricultura agribusiness, que ela pinta no ‘‘A foice e a enxada do século XXI’’ está na moda mas não é uma visão que cria empregos ou que alimenta as nossas famílias, pois a tecnologia tem, por definição, a característica de substituir a mão-de-obra’’.
O Sr. Meerbeek afirma ainda que o MST, que defende ‘‘a propriedade baseada na mão-de-obra familiar e não no capital’’, tem uma noção muito mais realista do Brasil do que eu. O sociólogo também insiste muito nos termos ‘‘moderno’’ e ‘‘mecanizado’’, levanta a questão do agrotóxico, se esquece de que foi José Rainha que se referiu aos acampamentos de sem-terra como favelas e não eu, e insiste no cabo da enxada como ferramenta apropriada para a produção agrícola. Diante disto só me resta fazer algumas sugestões ao sociólogo Meerbeek.
Senhor, urgentemente emerja das densas névoas da Idade Média que parecem envolvê-lo, deixe de lado por um momento seu projeto de favelização do campo com base na capina artesanal, e tente chegar ao século XVIII para compreender, através da Revolução Industrial, que o medo dos teares mecânicos já foi superado. Depois, se puder, venha tomar um cafezinho aqui no final do século XX. Então, poderemos conversar adequadamente sobre agribusiness, progresso, desenvolvimento, justiça social e lembrar que agrotóxico costuma ser usado também por microagricultores,
Aproveito ainda para reafirmar ao Sr. Meerbeek e aos demais leitores que me acompanham aos sábados, minhas conhecidas convicções: os mentores e os chefetes do MST não querem a reforma agrária, mas sim desestabilizar o campo para inviabilizar a cidade, a partir de um projeto de poder para poucos. O MST não é um movimento social, mas ideológico. O MST é fundamentado na má-fé, no desrespeito às leis e no atraso.
Finalmente, gostaria de lembrar ao sociólogo Meerbeek e aos demais cultores do cabo da enxada, uma sábia frase de Karl Marx: ‘‘Jamais a ignorância serviu a alguém’’.
Como um assunto leva ao outro, quero aqui repetir e comentar rapidamente uma notícia veiculada na Folha na quinta-feita passada, sobre a Fazenda Rio Verde, situada em Itararé (SP), na divisa com o Paraná. Esta fazenda, propriedade do advogado Roberto Maschieto, esteve 23 dias ocupada por 600 sem-terra, que produziram não algum cultivo, mas uma ‘‘devastação semelhante a um tornado’’, segundo a notícia. O proprietário, que passou mal depois que viu os estragos, resumiu numa frase todo seu sofrimento: ‘‘Arrasaram tudo que construí em 32 anos’’.
Ainda segundo a matéria, o panorama da Fazenda Rio Verde era o seguinte depois da passagem dos ‘‘agricultores familiares’’: ‘‘A casa-sede, parcialmente destelhada, estava com portas e janelas arrebentadas. Os sem-tera haviam defecado nos 12 cômodos e arrebentado vasos sanitários, pias e torneiras. Destroços e lixo estavam espalhados por toda a parte’’. E conforme narrou o proprietário, ‘‘televisores, móveis e eletrodomésticos, colchões e roupas foram levados. Do lado de fora espalhavam-se carcaças de bois abatidos pelos sem-terra. Parte da carne apodrecia em monturos’’. Note-se que aqui retrocedeu-se da Idade Média à barbárie.
Indagado sobre os atos de vandalismo dos seus seguidores, um dos chefetes dos sem-terra (ou seriam agricultores familiares?) respondeu com a arrogância e o cinismo dos que se sentem à vontade por se considerarem impunes: ‘‘O proprietário da fazenda não tem motivo para reclamar. A gente ia pôr fogo em tudo, sobrariam só cinzas para ele. Se ele começar a encher a nossa paciência, voltamos lá e queimamos tudo’’.
Este caso não é exceção. Muitos, semelhantes a este, estão acontecendo em nome da foice e da enxada. Assim, se esvai a reforma agrária, enquanto prevalecem o vandalismo e o banditismo. Diante disso não posso me calar.
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga e professora universitária em Londrina

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