Não morrer no ridículo (Rubem Azevedo Lima)
Sem ouvir o Congresso, o governo brasileiro apoiou a intervenção militar dos Estados Unidos no Iraque, operação que as autoridades americanas, herdeiras do poder de Roma, queriam executar, para recolher supostos arsenais de destruição em massa, armazenados nos palácios de Saddan Hussein, em Bagdá. Felizmente, o governo do presidente Fernando Henrique Cardoso evitou o pior, ao ressalvar que só aceitaria a intervenção depois de esgotadas as possibilidades de entendimento entre os EUA e o Iraque. O mal que o país faria ficou pela metade.
O acordo entre o hábil Kofi Annan, da ONU, e Saddam parou a corrida dos cães de guerra e pode levar à verdade incômoda para os apressadores belicistas. Aliás, como Noriega, do Panamá - também caído em desgraça, enquanto Suharto, da Indonésia, trucida o povo do Timor e é respeitado - Saddam foi útil aos EUA, na luta dos americanos com o Irã, de Khomeini. Mas, ao defender a soberania de seu país, ele repete o que fez Noriega e não serve mais. É o limite das ditaduras.
A alegação da busca de armas químicas no Iraque nem devia ser feita pelos EUA, embora eles tenham motivos de sobra para temê-las. Madeleine Albright, que não é americana de nascença, talvez não se lembre, mas foram os EUA que atiraram bombas de hidrogênio sobre o Japão. Devastaram as selvas do Vietnã com agente laranja e mataram milhares de vietnamitas a napalm.
As televisões mostraram uma carga de bactérias de Anthrax, embalada nos EUA, com instruções em inglês, que seria espalhada em Nova Iorque. Uma bomba de bacilos da peste bubônica explodiria na 5ª Avenida. Depois, tais crimes seriam atribuídos a terroristas do Iraque.
Na guerra do Golfo, em 1991, os EUA não pouparam sofrimentos aos iraquianos. Seus tanques Abrams atiraram 14 mil projetéis radioativos - cada qual feito com 70% de rejeitos de urânio (Depleted Uranium), daí a denominação de projetéis DU - contra os tanques russos do Iraque. Todos foram destruídos em quatro horas de combate. As radiações - superiores, num dia, ao padrão aceito pela AIEA, por ano, contaminaram 82% dos militares dos EUA presentes na batalha. Além disso, os aviões americanos A-10 despejaram, em alvos civis, milhares desses projéteis. Em Doha, um paiol com 660 artefatos explodiu, atingindo centenas de americanos. Em 1993, o Congresso dos EUA confirmou que eles foram contaminados pela radioatividade. Defendendo-se, o Pentágono admitiu que muitos veteranos do Golfo tinham sintomas de males estranhos. Era a leucemia. O Iraque denunciou à ONU os projéteis radioativos. Civis iraquianos já haviam morrido de leucemia e mais de 500 mil devem morrer da mesma doença. Vários países da América Latina compraram esses artefatos. Por isso, a política dos EUA, contra armas químicas, não convenceu nem os estudantes de Ohio. Foi do vexame de ter de engolí-la que o Brasil escapou. Segundo Churchill, a política e a guerra são excitantes. Mas nesta - dizia ele - só se morre uma vez; naquela, muitas vezes. Pois FHC livrou-se de ser vitimado, uma vez, pelo ridículo, na política internacional.





