Não mais o cantar do galo - Walmor Macarini
Não mais o cantar do galo
Walmor Macarini
A globalização, para os galos, já existia bem antes da televisão por satélite e da Internet. Porque todos os galos sempre cantaram igual, mesmo habitando diferentes regiões do mundo. O galo americano canta igual ao galo brasileiro, e ambos se entendem; também cantam o mesmo canto o galo japonês e o galo africano, e se colocados no mesmo terreiro eles se comunicam normalmente. Todos os galos fazem as mesmíssimas coisas e sentem as mesmas emoções. Diferentes dos homens, eles podem brigar de véspera mas sempre amanhecem cantando...
Por isso são felizes. E relógio de galo nunca atrasa, desde que o homem não invente horários alternativos, como este de verão. Os galos foram feitos para fazer as vezes do despertador, quando o relógio ainda não havia sido inventado, e eles eram imprescindíveis, porque o trabalho, antigamente, começava antes do sol nascer e era preciso que alguém acordasse o homem. - Nunca se soube que um galo tenha negligenciado em sua pontualidade.
Certa vez, Millôr Fernandes escreveu que Deus desperdiçou a cal e o cimento com que edificou este monumento que veio a chamar-se homem, quando, com o mesmo material, poderia ter construído mais cães e mais galos. Teríamos dentro da noite mais latidos disse ele e nas auroras mais alegrias com o cantar dos galos.
Retruquei Millôr, quanto à exclusão do homem. Pois de que serviriam os galos cantando ao alvorecer se não tivessem eles a missão de, com seu canto, despertar o homem?! De que serviriam os cães sem o homem a quem serem fiéis?! Na ausência do homem, restaria ao cão ser o melhor amigo do galo... E dia chegaria em que o cão acabaria comendo o galo, eis que o contrário nunca iria acontecer, porque ao que se sabe galo não come cachorro. Comido o galo, só ficaria o cão, com seu latido triste e solitário.
Vê-se pois que, juntos, homem, cão e galo necessitam-se, completam-se, não são de forma alguma incompatíveis.
Mas não foi o que entendeu a juíza de Arapongas ao sufocar o canto do galo. Na Cidade dos Passarinhos, onde os colombinos e todas as aves sempre cantaram, o galo já não pode cantar. Ficaram silentes as manhãs, e todos agora dormem até sol alto.
Retorno de viagem, e ao ler os jornais atrasados encontro esta notícia sobre o infortunado galo. Em verdade, o único fato de relevância neste país em trinta dias, porque nada de mais interessante aconteceu.
Para quem não leu, conto rápido: foi a história da professora penalizada pela juíza da comarca com 3 meses de prestação de serviços comunitários, porque seu galo cantador agora proibido de cantar durante seis anos cantou nos ouvidos da vizinha, justamente no horário daquele doce sono do amanhecer, quando todos os sonhos bons acontecem. E o galo, por ser já velho, dormia pouco e se levantava muito cedo, ademais os homens mudaram os hábitos de trabalho e o galo continuou cantando o seu canto no horário de sempre; que passou a não bater com o horário do homem. Também não lhe passaram noções de domingo, feriado, dia santificado, quando, se ensinado, quem sabe poderia cantar mais tarde...
Na Cidade dos Passarinhos se poderia impedir o mugir do boi, o berrar do bode, o relinchar do burro, o grunhir do hipopótamo, o blaterar do camelo, o guinchar do camundongo, o assobiar da capivara, o sibilar da cobra, o bramir do crocodilo, o bufar da cutia, o barrir do elefante, o miar do gato, o estridular do grilo, o rosnar do javali, o azurrar do jumento, o gecar do lagarto, o bramir do leão, o uivar do lobo, o miar da pantera, o roncar do peixe, o coaxar da rã, o grunhir do porco, o gargalhar da hiena, mas nunca o cantar do galo. Como nunca ninguém ousaria reprimir o bigornear da araponga...
E agora, sem o galo cantador? Penso o que acontecerá com a pobre vizinha sem a expectativa do galo a acordá-la com o seu canto...
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina





