Chamou a atenção do mundo, um presépio em Massachusetts (EUA), onde os personagens principais, Maria, José o Menino estavam ausentes. No seu lugar, uma placa: “O Serviço de Imigração passou por aqui”! Isso irritou sobremaneira Trump e seus asseclas. Contudo, o autor dessa “façanha”, malgrado a oposição das autoridades eclesiásticas locais, manteve a obra desse modo, até ao presente momento. Outrossim, na Europa, tornou-se comum de há uns anos a esta parte, representar os protagonistas da história natalina, com semblantes e vestes de raças que evidenciam os imigrantes e refugiados, que sobrevivem ao grande “cemitério a céu aberto”, em que se converteu o Mar Mediterrâneo. Estão certos. Quando eu paroquiava em Porecatu, terra de grandes mazelas sociais, fi-lo do mesmo modo, mostrando Maria, José e o Menino, fugindo pelo meio da cana do açúcar (um combustível não tão verde assim) a caminho do Egito! Natal não é letra morta de uma poesia enclausurada em categorias espaço-temporais, a critério de homens míopes! Não é arma contra o diferente, nem bastão de comando nas mãos de ímpios e malvados, belicosos e misóginos, xenófobos e racistas!

Diz a Escritura, único documento a registrar o acontecimento, que há cerca de dois mil anos atrás, um casal grávido teve que se contentar com um lugar precário e desumano, para dar à luz o seu filho. “Não havia lugar para eles”! Desde cedo, esta frase me inquieta. Os homens, inquilinos do mundo, negam lugar ao senhorio! A criatura, ocupa de tal forma a criação que o criador não tem mais lugar! Me vem à mente a questão ecológica atual, este “novo normal” em que transformamos o Planeta Terra e o despojamos de qualquer semelhança com o projeto original. Em poucos anos, haverá lugar para alguém?

O Natal não é um conto. Embora para os cristãos seja um evento histórico, ele se acomoda melhor na poesia, nos versos que interpelam, que tocam o coração, que nos despertam e que rasgam as nossas hipocrisias. Ninguém permanece incólume ao fato natalino. É um nascimento magistral. Daqueles que se inicia dando aulas! Olhos que se abrem pela primeira vez, ensinando, corrigindo, admoestando, indicando caminhos. O Natal se recusa a ser reduzido a uma noite histórica. Permeia vidas, gerações, sonhos e cura feridas. Há uma nítida quebra de paradigmas e revolução de conceitos, no ar exalado das palhas de Belém.

O mundo ocidental vem reduzindo o Natal a uma caricatura tênue, repleta de mentiras. Não fosse já o consumismo desenfreado, a tentativa bem sucedida de fazer com o Menino o que Herodes não conseguiu (!), presenciamos um avanço galopante de uma aragem poluída de belicosidades e avanço de extremismos, incompatíveis com a mensagem natalina. A shalom que brilhou na Judeia não encontra hoje lugar para se instalar. O mundo está demasiadamente ocupado em trucidar a axiologia ali revelada. São os cristãos que impedem Jesus de nascer. Não os agnósticos! Somos nós, que desfiguramos a civilização, retornando a uma barbárie destruidora e autofágica. Numa cultura da imagem, pautada por um narcisismo perturbador, não há lugar para nenhum nascimento que nos impulsione na direção do outro, sob os auspícios de um altruísmo renovador. Nesta “modernidade líquida”, conforme Zygmunt Bauman, o Natal se dilui em ruas iluminadas, muita gente apressada e alguns presentes.

Mas existem sinais. Sinais indeléveis de estrelas que nos conduzem até à manjedoura. Resistências silenciosas e anônimas que nos inundam de esperança. Homens e mulheres que não desistem de lutar pela Democracia, pelos Direitos humanos mais básicos, que colocam comida na mesa dos infortunados e excluídos. Enquanto mãos invisíveis estendidas e sorrisos abertos existirem, lugares apropriados se configurarão para Ele nascer. Então, isto é Natal

Pe. Manuel Joaquim R. dos Santos

Arquidiocese de Londrina

mockup