Não há justiça na vingança
Quando a busca de justiça se associa a sentimentos de ódio e vingança, a justiça terá aí desaparecido. Onde está uma não pode estar a outra. Justiça e vingança são incompatíveis. Justiça, para a grande maioria das pessoas, significa o castigo para quem feriu. Não por amor à vítima e seus familiares, mas por ódio a quem cometeu a agressão.
Onde se manifesta o desejo de vingança e a sede de fazer justiça, aí não reside amor nenhum. Porque as pessoas não terão entendido o significado nem de amor e nem de justiça.
Falamos da tragédia que envolveu os dois jornalistas, em São Paulo, e que ganhou repercussão nacional, pela importância das pessoas envolvidas. Um cenário pronto para a subida ao palco de ideologias manifestas e adormecidas, muito carregadas de oportunismo, eis que um momento destes não pode ser desperdiçado...
E uma semana depois do trágico episódio, já está criado um lobby de punição, com a abertura de uma conta bancária destinada a receber doações para custear bons advogados de acusação. Uma entidade foi criada, com o nome da jornalista, e um movimento de cunho ideológico já está plantado. Levantam-se colegas de profissão, associações feministas, comissões de cidadania, sindicatos. Não para uma reflexão sobre eventuais curas das fortes emoções que levam o ser humano a descontroles e a gestos extremos, ou para uma corrente amorosa que amenize a dor dos diretamente tangidos pelo sofrimento, mas para atender a apelos de vingança, mal identificados ante tanta cegueira humana mas que hibernam à espera de momentos como este para manifestar-se.
Não foi uma jornalista que foi morta, então não faz sentido uma manifestação odiosa da classe; nem uma mulher, então não há razão para iras feministas; não uma cidadã, portanto sem justificativa o levante das comissões de cidania. Foi um ser humano. E seres humanos não devem entender-se como classe, mas como fraternidade. O que é fraterno não ter cor ideológica.
A dolorosa verdade que cerca esse lobby não é outra senão jornalistas jovens querendo punição contra o jornalista velho; jornalistas subordinados querendo o justiciamento do jornalista chefe; jornalistas de ideologias antagônicas contra o jornal centenário; e também jornalistas sequiosos de execrar a figura importante do jornal concorrente. Muito proveito político e pouca dor pelo infortúnio da colega vitimada, e dos seus.
Um abaixo-assinado que circula pelas Redações apregoa que o movimento é pelo fim da violência e da impunidade. Não se crê que por esse caminho se chegue a tal. E anseios de punição são também formas de violência, que robustecem ainda mais a atmosfera já tão densa da alma nacional.
Paradoxal que os comunicadores sociais falem em fim de violência quando a maioria deles a difunde tanto, em seus jornais, em suas colunas, em seus programas de rádio e televisão! E, com relação ao episódio de São Paulo, quem pode afirmar que vá haver impunidade? E se é verdade que impera entre nós a impunidade para os mais poderosos, melhor seria rever a elasticidade de nossas leis. Pobres, se contassem com bons advogados para defendê-los, também se beneficiariam dessa flexibilidade.
Desnecessário dizer da dor das duas famílias enlutadas sim, ambas enlutadas, porque ambas têm pais, irmãos, filhos e daqueles amigos mais próximos, mas essa busca obstinada de punição não é justiça, mas insanidade. E ato insano, já bastou um. Melhor deixar que tudo siga o seu processo natural, e se há realmente sentimento de pesar, que não se o misture com o ódio e sede de vingança, porque onde está um não pode caber o outro.
Se nos unirmos numa corrente silenciosa de amor e de paz, em fervoroso propósito de que se derrame sobre todos a luz da compreensão acerca da verdadeira justiça e da fraternidade, faremos muito mais pela causa do fim da violência do que manifestações como estas que agora se esboçam e cada vez mais frequentes de fazer justiça pelas nossas mãos e que nada mais são do que explosões de ira e de vingança. Que, se coisas boas fossem, já teriam eliminado os males da face da Terra.
A sombra que paira sobre alguns pode envolver em sombras um contingente numeroso de pessoas, assim como a luz que se irradia de alguns poucos, ou de um apenas, pode iluminar a humanidade inteira. Reflitamos sobre isto, se queremos realmente realizar a paz.
- WALMOR MACARINI é jornalista em Londrina





