Não fazendo, mesmo com dinheiro
Causa perplexidade saber que R$ 9,1 bilhões destinados à conservação de estradas estão parados no caixa do Tesouro nacional, simplesmente porque o governo não se mobiliza. Em linguagem popular, isto significa ''dormir no ponto'' ou ''passar batido''. Esse dinheiro é oriundo da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico, um nome de difícil definição mas que se traduz pela popular Cide, o imposto sobre combustíveis cobrado de quem o adquire e que se destina à conservação das rodovias. Quando candidato, o agora presidente Lula foi questionado a respeito, na TV, e não sabia que imposto era esse e qual sua finalidade, e parece que continua não sabendo. No acumulado, desde que foi criado há três anos, a Cide já recolheu R$ 22,4 bilhões, e deste montante aqueles R$ 9,1 bi aguardam que alguém se mova e resolva gastá-lo na recuperação das estradas brasileiras, que estão em péssimas condições. E mais revoltante ainda é saber que quase todo o restante não foi aplicado no fim a que se destinava, mas em outras coisas, como o pagamento de juros e salários aos servidores, entre os quais grande parcela de burocratas de baixa utilidade e apaniguados que lotam as repartições públicas. Enquanto isso os veículos que escoam safras e transportam todas as cargas se arrebentam nas estradas cheias de buracos. Os números mostram que 74,7% das rodovias estão em lamentável estado, e apesar das imagens de tal situação, mostradas na televisão e nos jornais, os órgãos governamentais pertinentes não se importam e guardam o dinheiro, certamente para engordar as chamadas disponibilidades do Tesouro. Assim, deixam de dar função a essa verba específica, causando grandes estragos, representados por danos nos veículos, que são investimentos caríssimos; pela demora nas estradas, o que encarece custos e diminui o lucro dos caminhoneiros; pelo risco de assaltos em face da lentidão do tráfego; e o estresse dos que vão na boléia. Este é o Brasil do atraso, emperrado por quase tudo que dependa do governo que se não faz certas obras alegando falta de dinheiro, também não as faz quando o tem. Escasseia a competência gerencial e sobram os discursos. Se o governo já não investe em sistemas de transporte mais econômicos, adotados em larga escala no mundo, como o trem (e nos EUA usa-se intensamenteo também o avião cargueiro), ao menos que invista naquilo que o País tem, que são as rodovias. Estas, afora malconservadas, são insuficientes em quantidade e, na maioria, não têm duplicação, significando morosidade de tráfego e grande risco de acidentes. Diante de tal quadro, questiona-se a capacidade dos homens que são colocados à testa de ministérios como o dos Transportes, no caso e questiona-se também a ausência dos parlamentares diante de tanto descaso e tanta irresponsabilidade, como a de deixar parado dinheiro com a rubrica de servir à conservação das estradas. Ademais, com essa volumosa verba concentrada e sem mobilização, a ausência de obras deixa também de gerar empregos. Se o presidente Lula deseja percorrer o mundo em busca de investimentos e de aplausos (e agora com avião novo), que o faça, mas sem perder de vista que é o presidente do Brasil.





