O médico-legista Fortunado Badan Palhares ficou nacionalmente conhecido com o caso do tesoureiro do ex-presidente Fernando Collor, PC Farias, encontrado morto ao lado de sua namorada em Maceió (AL) há 12 anos. O que se viu em seguida foi uma polêmica guerra de laudos, um apontando homicídio seguido de suicídio e outro um duplo homicídio.

Palhares esteve em Jacarezinho para uma palestra aos alunos de Direito da Fundação Faculdade de Direito do Norte Pioneiro (FUNDINOPI) e falou com exclusividade à FOLHA sobre a função dos peritos criminais. Solicitado pela reportagem, ele fez uma análise do caso Amanda Rossi, baseado na reportagem publicada pela FOLHA em abril deste ano.

As perícias são bem feitas no Brasil? Temos peritos bem formados e equipamentos de ponta?
Tivemos durante muito tempo institutos muito mal aparelhados, sem condições reais de poder resolver boa parte dos crimes. Sempre defendi a participação das universidades com os nossos institutos de perícia forense, porque elas trazem bons profissionais e equipamentos muito caros que nem sempre são aproveitados. Infelizmente isso nunca aconteceu. Ainda vejo uma falha muito grande na capacitação de peritos, que se formam com três a seis meses de academia de polícia. É muito pouco. O indivíduo se acha perito, faz as coisas sozinho, erra muito e prejudica muitos inocentes que podem ser presos por falhas policiais.

Qual a porcentagem de casos resolvidos pela perícia?
Pelo que eu vejo no Estado de São Paulo, onde trabalho, em torno de 65 a 75%. É muito pouco. Não só pela perícia, mas também pela investigação criminal. A perícia em si muitas vezes consegue levantar questões importantíssimas mas que não têm correlação com a investigação policial posteriormente.

É fácil forjar a cena de um crime?
Sim, principalmente para quem tem algum conhecimento policial, pericial.

Podemos dizer que existe crime perfeito?
Não. O que posso lhe garantir é que existem perícias mal feitas.

No caso Isabela Nardoni, o que o senhor acha da defesa ter contratado um outro perito para contestar o laudo oficial? É ético?
A legislação permite a presença de um assistente técnico, portanto eu entendo ser ético sim. Todos temos o direito de defesa irrestrito. Além disso, o perito pode estar no local de crime, ser induzido a erro por questões diversas, e quem vai pagar é aquele que está sendo objeto de avaliação.

Tantos anos depois do caso PC Farias, o senhor faria a mesma análise do caso hoje?
Não tenho dúvida. Quando esse caso saiu, todos os dez peritos tínhamos convicção plena do que estava sendo anotado e descrito naquele laudo. O que aconteceu depois foi interferência de terceiros, e a mídia deu um valor muito grande àquilo que queriam que acontecesse mas que infelizmente não aconteceu. Daí tanta polêmica.

Os promotores não souberam conduzir o caso?
Não. Posso garantir que a primeira promotora que atuou nesse caso foi de uma incompetência de ser descrita. Ao invés de questionar o grupo que havia feito o laudo, ela chamou um amigo para dar um parecer sobre algo que ele não conhecia e nunca tinha visto. Este mesmo indivíduo tinha sido convidado por nós para fazer parte da equipe porque ele já estava falando bobagem antes do laudo ser emitido e das exumações serem realizadas. A partir daí, as coisas se complicaram. Para ele, não para mim. Porque para nós o Supremo Tribunal Federal já definiu por unanimidade de votos.

Tivemos em Londrina o caso de uma estudante assassinada dentro de uma universidade. Quase um ano se passou e não há solução. O senhor poderia fazer uma análise?
Pela avaliação do jornal, posso ter uma informação que não corresponda ao que está no processo. Eu vou ler só para ter uma idéia do que possa ter ocorrido. O indivíduo permaneceu no local cerca de um minuto, isso é impraticável. Para que ele pudesse efetivamente ter matado ela com um estrangulamento, levaria de cinco a sete minutos no mínimo. O autor permaneceu ali no mínimo uns 10 minutos. Outro dado importante: ela avisou colegas que ia sair com alguém. Ela não foi arrastada. Se foi sozinha para lá, é alguém da sua inteira confiança. A perícia deveria ter feito uma inspeção de todos os amigos, porque algum deles poderia ter algum sinal que indicasse uma tentativa de resposta à agressão. Como me parece que saiu uma grande quantidade de sangue, as roupas de todas as pessoas deveriam ter sido periciadas. Mesmo que a pessoa tivesse lavado a roupa, é possível saber se existiam ou não manchas de sangue. Essa seria a condução policial imediata. Além de fazer um levantamento de local com retirada de impressões digitais, impressão de solado, e outros elementos que poderiam nortear a investigação.

E o senhor acha que a polícia ainda tem condições de identificar essa pessoa?
Difícil. A não ser que o local tenha sido devidamente documentado por fotografias e que ao se rever esse local, possamos encontrar algum indício que não foi observado naquele momento. Os detalhes são indispensáveis para o bom entendimento de um local de crime. E são os detalhes que acabam trazendo as respostas que precisamos.

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