Os milhões de desempregados brasileiros não são os únicos, nem os mais numerosos, nem os mais infelizes. São apenas mais alguns milhões na fantástica estatística divulgada esta semana pela Organização Internacional do Trabalho. Segundo o relatório da OIT, há um milhão de desempregados no planeta, que equivalem a 30% da força de trabalho do mundo. O fenômeno da desocupação é generalizada, atingindo igualmente países ricos e em desenvolvimento assim como a tendência de crescimento entre a maioria das nações. São sombrias as perspectivas, dizem os analistas da OIT, inconformados com o que chamam de resignação dos governos perante a crise do trabalho.
E não é só isso: os especialistas garantem que o desemprego que assola a terra nada tem a ver com a globalização da economia. Os ideólogos globais pregam incessantemente a desregulamentação do trabalho, alegando que, quanto mais barata for a folha de pagamento quanto menos custar um emprego, mais oferta de trabalho haverá no futuro próximo. Para a OIT, no entanto, isso é balela. De nada adiantará a desregulamentação, que em última análise significa apenas a redução de direitos do trabalhador, se não houver crescimento econômico. Aí reside a principal causa do desemprego, segundo os pesquisadores.
A tese da OIT serve como uma luva para o Brasil, onde a performance medíocre da economia puniu gerações que chegam ao mercado para disputar a mesma quantidade de vagas que há duas décadas se mantêm inalteradas. E isso até os economistas do governo sabem. O IPEA, do Ministério do Planejamento, por exemplo, sempre insiste em que é preciso uma taxa de dez por cento ao ano de crescimento para absorver os desempregados e os que chegam ao mercado - possibilidade que não passa de sonho perante a crise do Estado brasileiro e as necessidades de controle da inflação. É assustador; mas a realidade espanta mesmo. A crise continuada, combinada com o esforço para se ajustar às exigências do mercado internacional, fizeram do Brasil um exemplo rematado de como as perversidades do capitalismo atual esfriaram as consciências dos governantes. A resignação de que fala o relatório é corrente nos discursos oficiais; a desregulamentação das relações do trabalho é reivindicação constante dos empregadores. Pelo visto, nada disso vai levar a soluções para o problema.
A verdade é que o capitalismo, neste final de milênio, perdeu a vergonha. Quando havia os países comunistas, o Ocidente precisava revestir-se de virtudes para fazer um contraponto. Os países capitalistas representavam o mundo virtuoso de oportunidades, onde o Estado estava apto a cuidar do bem estar da população, e se preocupava em conter os abusos próprios da força realizadora do capital. Agora nada mais é preciso: não há inimigos por tás da cortina de ferro para desafiar. Não se deve desprezar, no entanto, o significado de um bilhão de desempregados. Eles são muitos, e não estão sozinhos. E, pela lógica do capitalismo, deveriam estar consumindo.
- MÔNICA WALDVOGEL é jornalista em Brasília.

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