É uma boa política cortar gasto público com a diminuição do repasse de verbas para uma categoria de Câmaras Municipais, a partir do ano que vem – o que acaba de ser aprovado pela Câmara Federal – mas nesse pacote está também a aprovação da volta ao número anterior de vereadores. O Senado vai agora votar as duas proposições – dispondo de prazo até 30 de junho – e tem-se como certo que aprovará a restrição das verbas, mas sem a certeza que não vá atender ao corporativismo e acabe aprovando a elevação do quadro de vereadores. O corte de repasses abrange 2 mil municípios, menos de metade dos existentes.
  Óbvio que os vereadores, se não estão preocupados com o ônus resultante do maior número de colegas (porque lhes daria mais chance de reeleição), já estão esperneando por causa dos anunciados cortes de dinheiro para suas gastanças no exercício da função. Bem no estilo do ‘‘espírito público’’ dos políticos brasileiros.
  O diretor-executivo da União dos Vereadores do Brasil, Sebastião Misiara, diz que a situação ‘‘é preocupante’’, mas os brasileiros com certeza já sabem a razão dessa preocupação. É que, com menos dinheiro, as mordomias serão menores. Porque, se a corrupção corre solta nas Câmaras e nas administrações públicas, desabastecer o cofre forçará os parlamentares a usufruírem menos das benesses da função. Certo é que eles sempre se arranjam, por via da propinagem – de que é um exemplo, no momento, a descoberta das falcatruas no Legislativo londrinense – que de fato nunca foi novidade, nesta e em legislaturas anteriores, e não apenas em Londrina mas em todo o Brasil, onde circula dinheiro público.
  ‘‘Tem Câmara Municipal que vai fechar’’, declara aquele vereador, e se não fosse a necessidade dos parlamentos para apresentação, discussão de leis e melhora ou extinção das existentes – sem os quais a representatividade popular e a democracia não se operam – o povo diria que se poderia fechar todos eles.
  Preocupante mesmo é essa proposta absurda de ressuscitar o antigo número de vereadores em grande parte das Câmaras, porque cortar de um lado e aumentar de outro deixa as coisas do mesmo tamanho. O povo não entende, e justificadamente, essa estranha alquimia. Existem hoje no Brasil 51.875 vereadores, mas não são apenas eles e também seus assessores (na maioria desnecessários) e muitos apaniguados que recebem sem nada fazer.

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