Não: ela pode competir e sobreviver
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quinta-feira, 16 de agosto de 2001
José Aparecido de Moura 
No domingo, os londrinenses vão às urnas para decidir o futuro da Sercomtel Celular. É fundamental participar do plebiscito e votar no número 88 contra a privatização da empresa. Na opinião do Sindicato dos Trabalhadores em Empresas de Telecomunicações (Sinttel), entidade representativa dos funcionários da Sercomtel e de todos os trabalhadores em telefonia do Estado do Paraná, a Celular tem capacidade de sobreviver. E não é por questões sentimentais, políticas ou pessoais. É por questão técnica, principalmente.
Atualmente, existe uma tendência de desaceleração acentuada dos investimentos no Brasil e no mundo no segmento de telecomunicações. A Banda C não teve compradores no último leilão. A perspectiva é de que não apareçam interessados. A Banda E não despertou interesse de nenhuma operadora em nossa região. Na Banda D, a TIM dificilmente conseguirá iniciar as operações antes de março de 2002, já que terá problemas para compatibilizar diferentes tecnologias e serviços na mesma área (Paraná e Santa Catarina) com relação a Londrina. Ou seja, o grande e real competidor é o que já está operando, e segundo os últimos números, apresenta uma tendência de estabilidade em relação ao mercado local.
Hoje, a Sercomtel Celular reverteu a tendência de perdas de assinantes, além do fato de que o mercado local vem sinalizando que foi atingido o público disponível (o momento agora é de reposição de aparelhos). Novas mudanças no cenário só ocorrerão em meados de março do próximo ano, quando o concorrente local terá transmissão de dados em alta velocidade. Até lá, a Sercomtel Celular poderá redirecionar a sua posição no mercado.
A privatização da Celular abre precedentes para futura venda da Sercomtel Fixa. A saída da operadora de celular do Conglomerado Sercomtel provocará uma perda de aproximadamente R$ 4 milhões na holding por ano. Além desta perda, se a Celular for privatizada, a empresa que vier a assumir poderá renegociar os contratos de interconexão e prestação de serviços existentes hoje, e se isso acontecer, trará perdas para a Sercomtel S.A (Fixa, ADTV ASK e Internet By Sercomtel). Estes exemplos mostram que a privatização diminui significativamente as perspectivas futuras da sobrevivência da empresa fixa.
Vender a Celular é perder um segmento de tecnologia de ponta em Londrina. Hoje existe toda uma cadeia de empresas fornecedoras e prestadoras de serviços locais, que desenvolvem soluções e serviços de alto nível tecnológico. Com a privatização e a entrada de uma empresa multinacional, perde-se esta referência e este segmento de negócios. No momento em que se implantam os cursos superiores em Engenharia de Telecomunicações, fecham-se as portas de um parceiro importante, para estágios e empregos.
Não acreditamos que a Sercomtel Telecomunicações possa garantir o desenvolvimento em novas tecnologias e avanços em outras áreas de atuação e mercados, como dizem os defensores da privatização, investindo os 10% da receita com a venda da Celular. Mesmo que este percentual venha a ser aplicado, podemos considerá-lo insignificante. Por exemplo: para estender 55 quilômetros de cabos em Osasco, a empresa ADTV, do Grupo Sercomtel, precisou de R$ 4,5 milhões. Será que dá para imaginar que, por exemplo, R$ 10 milhões, seriam suficientes para fortalecer a Sercomtel?
O desemprego das famílias londrinenses é outro motivo que nos leva a posicionamento contrário à venda. Chega a ser assustador o modo como os partidários da privatização tratam do assunto, com tamanha insensibilidade.
Todo mundo sabe que a privatização, no geral, trouxe para o povo o encarecimento das tarifas, a precarização dos serviços e principalmente, o desemprego. Vale citar o exemplo da Ceterp (empresa de telefonia municipal de Ribeirão Preto), que foi privatizada em 99 para a Telefonica, e teve mais de 90% do seu quadro de trabalhadores demitidos. A venda da Celular, além dos empregos diretos, também terá os indiretos daquelas empresas fornecedoras e prestadoras de serviços.
O Executivo municipal poderia deixar a posição de vender a Celular e traçar estratégias para esta importante empresa pública. Existem perspectivas de negócios lucrativos com o Serviço Móvel Pessoal (SMP). O investimento de aquisição da licença para este serviço custa aproximadamente R$ 1 milhão e ele não precisa ser pago imediatamente. Ele pode ser parcelado ao longo dos anos.
Com o SMP, abre-se uma oportunidade excepcional de expansão da área de mobilidade dos usuários da Celular, pois toda a área 043, que compreende todo o Norte Pioneiro (Jacarezinho, Santo Antonio da Platina, por exemplo) até a região de Apucarana, Jandaia do Sul e até mesmo Ivaiporã, passa a ser enquadrada como área tarifária única, ou seja o valor da chamada será o mesmo em toda esta região, sem pagar adicionais, eliminando a desvantagem competitiva que temos de estarmos restritos a Londrina e Tamarana. Além deste fator, o próprio SMP prevê a possibilidade de unir novamente as duas operadoras de celular e fixa. Desta forma, voltaríamos a ter possibilidade de unidas sobrevivermos no mercado altamente competitivo que haverá em 2002.
- JOSÉ APARECIDO DE MOURA é técnico em telecomunicações, funcionário da Sercomtel Fixa e diretor do Sinttel


